Acampamento em Cambará do Sul e Cânion Malakara

29 de outubro de 2011

Acampamento em Cambará do Sul e Cânion Malakara por Vitor Diniz Sott

O tédio e a monotonia que no transcorrer das horas do cotidiano acomete a nós seres urbanos, em muitos casos não pode ser aplacado com apenas uma pequena mudança na rotina ou com uma daquelas festas “super legais”.

É preciso sim uma revolução em nossa realidade e no ambiente circundante. Neste caso viajar por caminhos nunca antes trilhados é uma pedida muito mais do que sensacional. Para mim então que gosto de uma dose de aventura, mas apenas uma pitada de gastos, um acampamento é o programa ideal.

Neste momento o passo mais importante já havia sido dado, tomar a decisão de viajar. Tive consciência de que eu precisava urgentemente de uma viagem-terapia, caso contrario provavelmente enlouqueceria pelo trânsito, a vizinhança e pelos demais causadores de sofrimento dos conglomerados metropolitanos.

Tínhamos a vontade, porém faltava-nos saber qual seria nosso destino. Conversando com um casal de amigos, encontramos companheiros de viajem que tinham uma sugestão maravilhosa. Acampar nas intermediações do cânion Malakara localizado no município de Cambará do Sul, berço deste e de outros dois grandes cânions do Rio grande do Sul. Em comparação com os cânions Fortaleza e Itaimbezinho, o Malakara não tem nenhuma estrutura de acesso e para chegar até ele é necessária muita disposição para caminhar no mínimo duas horas e meia por entre fazendas, campos, terreno pedregoso e muitas subidas. Eu, minha namorada e nosso casal de amigos, que eram também guias, chegamos ao local de acampamento com a lua a nos espreitar e o frio aumentando a cada momento.

O Cânion

Cânion Malakara

Armamos nossas barracas na escuridão, cerca de 200 metros do cânion, em uma pequena clareira rodeada de árvores no pé de um morro e a beira de um simples córrego que na extensão de seu curso formava uma linda e majestosa cachoeira a se derramar por entre as fendas do Malakara.

O Cânion – Outra vista

Boa alimentação, ótima conversa e uma noite muito tranqüila precedeu uma manhã ensolarada e um desjejum acompanhado de uma visita inusitada. Fervíamos leite e eu me direcionava para a água com alguns copos e talheres a serem limpos. Subitamente minha atenção é capturada por um ser que não constava em meus registros de memória.

Nosso Acampamento

Cambara do Sul Cânion Malakara

Acampamento no Malakara

Fiquei parado, confuso, pensando o que poderia ser aquilo, que perto de mim saciava sua sede nas águas gélidas daquele límpido lajeado. Parei com o que estava fazendo e chamei meus companheiros para vislumbrar o que eu vislumbrava e sentir o que sentia. Entusiasmo, inquietação e uma dose de ansiedade tomou conta do grupo, porém a surpresa maior foi perceber que o animal não sentia medo das pessoas e sorrateiramente se aproximava. À medida que chegava mais perto vi sua pelagem cinza e dourada com um rabo peludo e seu focinho alongado. Com um porte de um pequeno cachorro, notamos que o Grachaim não estava ali por nossa causa, mas sim motivado pelos anseios de uma farta refeição. Assim como no zoológico, mantidas as relativas proporções, não se deve dar comida aos animais, pois além da intenção de manter intacta a flora intestinal do bicho não queríamos ter a incomodação de atrair parentes e familiares do meliante. Antes que conseguisse usurpar nossos mantimentos pedimos a ele que gentilmente se afastasse, porém como nosso cortês pedido não foi atendido, tivemos de usar estratégias mais intimidadoras.

Nosso visitante

cambara do sul

Um ilustre visitante

Com os corpos alimentados e os espíritos sedentos, deixamos nosso acampamento para explorar esteticamente as grandes obras que a natureza construíra durantes muitos milênios. Primeiro conhecemos o imponente cânion, que de maneira magnífica é uma cicatriz na crosta terrestre do relevo local. Subimos um pequeno morro à cerca de 100 metros da boca do cânion, para apreciarmos a paisagem, refletir, conversar e, é claro, tudo isso regado por muito chimarrão. Quando findou nossa água quente, infelizmente tivemos de voltar a nosso acampamento.

Após um delicioso almoço, um sono revigorante. Já beirava final da tarde e logicamente fomos vislumbrar o crepúsculo em um dos locais mais esplêndidos que já conheci. Uma espécie de apêndice ou península de rocha adentrava a fenda do malakara. Estando na extremidade da formação tive a impressão de estava voando, porém tratei de logo desfazer este pensamento com medo de que se concretizasse, pois uma queda naquelas circunstâncias certamente seria fatal. As andorinhas em meio a uma espessa camada de nuvens que cobriam o fundo da fenda permitiram-nos ver seu espetacular show de acrobacias aéreas. O astro que nos aquecia logo se escondeu no horizonte e a noite trouxe consigo um vento gélido e preocupante. Será que logo em nosso ultimo dia, quando teríamos de desfazer o acampamento e organizar as coisas, cairia chuva e também a temperatura? A madrugada reservava muitas surpresas.

Na beira do abismo

Cambará do Sul com Malakara

Cânion Malakara

Jantamos em meio ao sopro de uma estranha brisa, que parecia preceder violenta tormenta. Divertimo-nos tomando um bom vinho e confraternizando o momento, mas ao mesmo tempo permanecíamos preocupados com o que estava por vir. O vento aumentava gradativamente, chegando a ponto de se tornar inviável permanecer fora do abrigo. Ele soprava com agressiva intensidade, se potencializando por não haver obstáculos em seu caminho.
Estávamos no pé de um morro, porém, o caminho do vento primeiro nos atingia para em seguida ser desviado pela elevação. A temperatura havia baixado muito de um dia para o outro e o vento deixava a sensação térmica ainda menor. Naquela noite percebi que a barraca que usávamos não foi projetada para aquelas condições de vento forte e muito frio. Suas hastes de sustentação envergavam feito bambu, e pelos locais mais estranhos permitia que grande quantidade de vento a invadisse. O barulho sombrio do vento e o medo de nosso abrigo ceder e rasgar fizeram de nossa noite de sono um período pouco agradável. Não dormi profundamente, apenas breves cochilos. Apesar de estarmos utilizando bons sacos de dormir e vestidos com roupas quentes, passamos frio de maneira nunca antes sentida.

O sol nasceu no horizonte e continuava ventando intensamente. Não era possível tomar café ao ar livre então tivemos de fazê-lo dentro da barraca. Esquentar o leite foi um pouco complicado. Com aquele tempo não havia muito que aproveitar do dia, e resolvemos partir. Esperamos até o sol aquecer o local e arrumamos nossas mochilas. O mais complicado foi o briga que travamos com o vento que queria de toda maneira levar para longe a lona das barracas.
Após um final de semana agitado e empolgante teríamos de voltar para a civilização. Mas antes enfrentaríamos mais de duas horas de caminhada.

Hora de ir!

Cambabá do Sul

Cambabá do Sul

Foi Maravilhoso o que passamos e o descanso que tivemos. A vista e as paisagens alimentaram nossos espíritos. Eu me sentia revigorado, mas também consternado de ter de partir. Porém se não partisse não poderia ter saudades do local e dos momentos. Queria lá ficar, mas também queria muito poder voltar para toda aquela beleza. Fomos embora e para trás deixamos momentos de muito deleite e prazer. Mas conosco levamos lembranças e laços nunca perdidos. Rememoraremos e serão revividos em cada encontro que tivermos.

Dicas do Viageiro: Leve sempre roupa quente, mesmo no verão.
Como chegar: Chega-se a Cambará vindo do sul via São Francisco de Paula ou pela BR 101 subindo via de Praia Grande.

Veja Também: Hotéis e Pousadas em Cambará do Sul

Leia mais: Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

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