Travessia Rio Grande a Florianópolis

Travessia Rio Grande a Florianópolis num veleiro

por Roberto Lima

Leia também: Rio Guaíba: A vida em um veleiro e Travessia Porto Alegre a Rio Grande

Um tripulante teve de desistir da ida até Florianópolis, pois sua licença iria expirar antes de nosso vento chegar. Fomos a Porto Alegre e arrecadamos um novo navegador, algo menos experiente um pouco, mas grande companheiro. Se o enjôo lhe acompanhou em todo o percurso fazendo-o ficar quase todo o tempo na horizontal num beliche, ao menos mantinha sempre o bom humor, o riso fácil e agüentou bravamente as chacotas que fizemos durante toda a viagem.

Semana seguinte chegamos ao nosso navio novamente. Revisão, abastecimento de suprimentos no mercado, refrigerador cheio, revisão de velas, motor, tanques. Tudo certo. Saímos numa terça feira quase meio dia. Paramos numa empresa pesqueira e enchemos o porão de gelo. Assim como se fôssemos um pesqueiro que vai à pesca trocar o gelo por pescados. No nosso caso, tínhamos um calor muito forte do lado de fora, uma viagem incerta em duração pela frente – coisa de dois a quatro dias, comidas que necessitavam de refrigeração e, com certeza, algumas caixas de cerveja que deveriam ser mantidas prontas para o uso. Como sempre me repetiu minha mãe, quem vai ao mar se avia em terra. Sábias palavras.

Ao final da tarde, caminho da barra, não fizemos as burocracias que manda o figurino, mas fomos ao mar mesmo assim. Tivemos a grata companhia na saída de uma grande embarcação da Marinha do Brasil que, soubemos depois, se dirigia ao Rio de Janeiro.

Sair na barra sem os devidos trâmites ao lado de uma Corveta não é algo assim agradável. Contemos ainda com a angústia de uma primeira ida ao mar no comando da minha embarcação, toda a responsabilidade que isto importa, imaginem o embrulho no estômago. Mas desgraça pouca é bobagem. Ao sair na barra ouvimos algo diferente no porão. Um ruído estranho vindo da região do motor. Meu Deus, e agora?

Nosso faz tudo, foi em busca do motivo de tal som e veio com uma bela notícia. Um calço do motor havia partido. O motor passara a funcionar fora do alinhamento. E agora? Voltar? E o mico? Mico nenhum é claro, mas e o orgulho de voltar após tantos preparativos?

Qual o risco, perguntei. Vai fazer água! Isso significa que entraria água no barco. Vamos aqui definir o que de melhor ouvi sobre um barco: é uma casca de nós ou algo assim, que tem um leme, um motor ou velas e que só tem significado quando se acrescenta água. Mas devo salientar é que a água deve ficar do lado de fora. Não seria este nosso caso, a teríamos do lado de dentro também.

Avaliamos as condições de baterias e bombas e concluímos que tínhamos mais capacidade de expulsar a água do que ela de entrar. Decisão: vamos em frente! Festa a bordo, uma cervejinha para comemorar e nos fizemos ao mar, definitivamente.

No início da noite estávamos a milhas de Rio Grande. Víamos apenas as luzes. Tudo novo. O embrulho no estômago se mexia de lado a lado, nosso tripulante mais novo foi ao berço. Deu sinais de enjôo. Tudo corria bem, água entrando, mais rápido saía, tudo certo.

Navegamos a noite e o dia seguinte a motor, vento quase a zero. Estávamos num veleiro e queríamos velejar, antes de qualquer outra coisa. Mas afinal, tínhamos combustível suficiente, então isto não seria um problema. Seguimos junto à costa e perdemos contato com a Corveta. Jogamos linhas à água e pescamos algo para o jantar e almoço do dia seguinte. Nosso tripulante ainda estava de enjôo e isto diminuía a necessidade de alimentos.

Tempo tranqüilo, sol quente, apenas uma brisa suave, mas que parou ao final da tarde do segundo dia. Algum tempo mais e entrou um vento do quadrante Norte, tudo que poderia ser inesperado e indesejado. Algumas horas mais e o vento refrescou, ou seja, aumentou de intensidade. O mar começou a levantar ondas e ficou desagradável. Mar e vento contra. Nada forte, mas contra!

Colocamos, por segurança, rumo à África e escoramos a navegada na vela e motor. Isto faria com que fôssemos para frente em nosso destino com uma boa velocidade. Passamos a noite muito molhados, a onda jogava borrifos por sobre o barco e molhava toda a coberta. Dormimos no convés para podermos vigiar navios e as condições de tempo. Se algo piorasse teríamos de tomar decisões a respeito das velas e rumo.

Ao amanhecer, longe estávamos da costa a qual não era mais avistada. Tomamos um café para aquecer os ossos e o cérebro. Roupa trocada, agora secos, decidi colocar o barco no rumo da costa e, tanto quanto possível, para o Norte. Pareceu mágica, manobra de mudança de rumo feita, o vento parou de vez! Ficou somente a onda.
Fiz os cálculos de posição e colocamos o barco no rumo do Farol de Santa Marta. Navegamos o dia tranqüilos e avistamos o Farol próximo do meio dia. Muito ao longe. Novas linhas n`água, peixes para o almoço. Avistamos um outro veleiro seguinte na mesma rota e tentamos contato pelo rádio. Só para um alô, mas nada conseguimos. Algo frustrante. Avistar outro barco numa navegada deste tipo, embora com pouco tempo no mar, leva-nos a querer dar um alô, um cumprimento.

Lembrei de uma fala: “Houve tempo em que dois navios que se encontrassem no mar baixavam o pano e batiam um papo; depois, no momento de seguir seus rumos diferentes, saudavam-se com um tiro de canhão. Hoje em dia as pessoas mal têm tempo de conversar, mesmo que seja no meio do mar, onde qualquer notícia é novidade. Acabou-se a poesia dos velhos cargueiros; é uma vida prosaica esta em que não se tem mais tempo de dar um bom-dia àqueles que passam por nós!” Isto fora constatado e dito por Slocum, lá pra setembro de 1892, mas ainda frustra.

Meio da tarde começou uma formação muito escura no quadrante Sul. Um bom vento destes lados é o que queríamos desde a saída, mas agora ele nos colocaria na barra Sul da ilha de Santa Catarina, Florianópolis, já noite feita. Isto seria muito impróprio. Como estávamos navegando sem pressa alguma, sem horários, tempo de chegada e tal, resolvi colocar o barco em Laguna para uma visita à cidade. Muito bom seria se chegássemos antes do vento à barra.

Continuamos nossa navegada agora com mais motor. Controlamos a intensidade do vento que chegava para ver as nossas condições de acesso à barra de Laguna. Quando estávamos frente a ela, decidi entrar e manobrei em sua direção. Fiz rumo da praia, passando pela entrada da barra que ficou por bombordo. Cerca de 300 metros após, manobramos o barco e viemos protegidos pelos molhes em direção à boca da barra. A entrada em Laguna não é muito segura para nosso tipo de embarcação, ainda mais com a onda começando a subir e o vento ficando mais forte.

Vim esgueirando o barco, protegendo-o das ondas que vinham de sul, numa distância segura dos molhes onde uma platéia se formou para ver nosso sucesso. Penso, ao menos, que esta era a torcida. Ao chegar frente à barra, dei o tempo de passar uma crista de onda que já estava muito alta e, literalmente, joguei o barco para dentro dando todo o motor. Foi o tempo certo. Nova onda vinha quebrando por fora do molhe sul e nos pegaria de mau jeito se a manobra não tivesse sido rápida. Mais uma das que aprendi com os grandes capitães, naqueles livros de cabeceira.

Seguimos até o Iate Clube, ótima recepção e acolhida. Tivemos apoio para reabastecer os tanques de diesel, passamos uma noite muito boa, bem abrigados, fora da barra o vento roncou forte até a madrugada. No meio da manhã, após esperarmos que as ondas baixassem, seguimos para a barra. Para nossa surpresa elas ainda estavam muito altas. Pudemos avaliar a intensidade do vento que havia passado para deixar aquele tamanho de mar.

Mesmo assim, fizemos toda uma manobra cuidadosa controlando o tempo das ondas, com um de nossos marinheiros – ex-surfista, subindo ao mastro para controlar o ritmo e tempo da série, como ele disse. Do convés, naquela situação, não víamos o mar devido à altura do molhe sul. Mar avaliado, tempo medido entre as ondas, recebi o aviso de ir em frente pois este era o tempo necessário para chegarmos na saída da barra no momento certo. Acelerei o motor, o barco iniciou seu deslocamento, a velocidade se firmou e veio o grito de retroceder. Vinha uma onda entrando e nos pegaria de mau jeito.

Nestes momentos tudo passa muito rápido por nossa mente. Uma infinidade de informações, conhecimentos prévios, imagens, passam como se fossem um raio riscando o céu. Voltar seria impossível. Havia muita correnteza, a maré estava vazante, as águas da lagoa faziam um movimento nada agradável para saírem da barra. Dar ré naquela situação deixaria o barco à mercê das correntes que o levariam contra os molhes. Não havia, também, espaço para dar a volta de 360 graus, pois a barra é muito estreita para o tamanho e raio de manobra necessários para meu navio.

Olhei para o mastro e vi meu marinheiro apavorado, coisa que também pude ver no semblante do outro no convés. Imagino que minha cara tenha ficado da mesma forma. Lembrei da saída de Rio Grande, calço do motor quebrado, motor desalinhado, água entrando, muita água agora. Que fazer? Lembrei de algo que li uma vez: “se não dá para orçar, arriba!” Não era o caso, mas se parecia muito. Ou seja, se não podia voltar, acelera e vai!

Foi o que fiz, chamei meu tripulante para o convés por segurança e enfiei mais ainda a mão no manete do motor dando mais aceleração e aumentando, se não a velocidade do barco, pelo menos sua capacidade de galgar a maldita onda. Fomos saindo lentamente da barra, parecia câmera lenta, me sentia assim. Na verdade tão rápido quanto possível, mas aquilo parecia uma eternidade. Avaliei que tanto mais demorasse melhor, daria mais tempo para eu ver a tal onda e tentar alguma manobra. Como se o tempo pudesse aumentar por parecer lento. Ou será que pode?

Fui avistando a tal onda fora da barra, ela vinha numa forma e tempo que me dava má impressão. Poderia passar sobre o convés. Segurem firme! Gritei. O navio avançava e a onda também, antecedendo algo como se fosse um choque. Parecia-nos dura como pedra e, por algum momento, como se o barco não fosse subir junto com ela. Tinha altura e muita potência. Nos olhamos novamente, não vi temor, mas muita apreensão.

A massa d’água começou a se chocar contra o molhe sul passando espuma por sobre ele e o barco foi saindo da barra, faltavam poucos metros agora, pouco tempo. Avaliei novamente e vi que nosso único perigo parecia o de ser arremessado sobre o molhe Norte. O que seria uma catástrofe. Uma viagem daquelas, minha primeira no comando de um navio, meu navio! Não era justo.

Pude avaliar mais uma vez a situação, dei mais manete para ter mais potência ainda, passávamos o alinhamento do molhe sul, estávamos com ela a nosso lado, mas com espaço para manobrar. Virei o leme rápido para iniciar a subida de sua crista. O barco atendeu com sua lentidão característica. Navio de quilha longa, muito bom de curso, lento de manobras.

Fomos subindo, parecia que não venceríamos, o motor foi cedendo à potência da onda deixando o barco perder velocidade. Virei novamente o leme de forma mais lenta e no sentido oposto para poder descer a onda sem cravar a proa na cava da próxima, o que seria muito ruim. Parece-me que fomos ganhando alguma velocidade e sobrevida. O barco foi subindo mais, agora ao longo da onda, até atingir seu cume. Ela quebrou no costado. Foi um impacto e tanto. O barco todo estremeceu e a espuma passou sobre o convés trazendo consigo muita água.

Alguns instantes mais e iniciamos a descida de forma espetacular. O alinhamento colocado fez com que descêssemos uma ladeira de forma suave. O motor deu velocidade novamente ao barco, fomos suavemente ao fundo do poço entre a onda que passou e a próxima e a encontramos de forma esplendorosa. Galgamos esta segunda e, com muito alívio, vimos que havia passado o perigo. Ufa! Só alguma água no convés (talvez também alguma calça cheia).

Daí em diante nosso dia foi tranqüilo, avaliar, rir um pouco, fazer mais chacotas agora, porém, do surfista. Buenas, estava enferrujado o rapaz, afinal era um ex-surfista. Registrar na memória o aprendizado, muito importante!

Navegamos pela baía Sul da Ilha de Santa Catarina de forma lenta, pois todo o cenário era novo e queríamos apreciá-lo o mais possível. Chegamos ao Iate Clube de Santa Catarina, em Florianópolis, no meio da tarde. Ótima recepção!

Daí em diante foram dois anos nesse ambiente. Céu azul, mar calmo, passeios, pescarias, tempestades, mais céu azul. E assim segue o ciclo do tempo.
Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: Tanto o Iate Clube de Laguna como o de Florianópolis tem estruturas para receber o navegador. Se necessitar de algum reparo na embarcação, o Iate Clube de Florianópolis, Veleiros da Ilha, dispõe de guincho de porte.

Deixe uma resposta