Travessia Porto Alegre a Rio Grande

Travessia Porto Alegre a Rio Grande por Roberto Lima

Rio Guaíba – A vida em um veleiro Rio Grande a Florianópolis

Esta história de viagem se deu lá por 1994. A viagem toda vai de Porto Alegre até Florianópolis num veleiro oceânico de 43 pés ou 13,2 metros, dois mastros, pesando 12,5 toneladas e com três tripulantes a bordo. Aqui relataremos a etapa que compreende o trecho de Porto Alegre até Rio Grande, ao longo da Lagoa dos Patos e Rio Guaíba. O relato continuará com a etapa Rio Grande a Florianópolis.

Após muitos preparativos, o barco com pintura nova, convés consertado, velas revisadas, estávamos prontos para partir para uma grande aventura. Esta aventura a que me refiro, iria nos levar até Florianópolis. Claro que antes tínhamos a travessia de Porto Alegre a Rio Grande para ser feita.

Esclareço, para os menos experientes na arte da navegação – e que nunca se atentaram a este detalhe, que para irmos de Porto Alegre ao Norte pelo mar teremos, necessariamente, de ir a Rio Grande. Não há outra saída por água, ainda. O que fez Garibaldi durante a Revolução Farroupilha foi deslocar seus batelões sobre rodas, pelo campo e rebocado por uma tropa de bois, das proximidades de Palmares do Sul até Tramandaí. Para tomar este percurso ele navegou rumo Norte pela Lagoa do Casamento que é a parte norte, por assim dizer, da Lagoa dos Patos e que banha as costas de Palmares do Sul.
Então, muito já havíamos navegado pelo Rio Guaíba e a Lagoa dos Patos, mas ir além da fronteira que separa nossa querida Lagoa do mar, era uma peripécia que a muitos assustava. Mesmo aos velejadores mais audazes.

A idéia recorrente nos clubes náuticos da região, e que não é de todo errada visto ser aprovada por tantos navegadores que já estiveram nos oceanos do sul do Brasil, abaixo do temido cabo de Santa Marta, mesmo àqueles profissionais, é de que o oceano sul é algo por demais perigoso e uma embarcação de cruzeiro teria de estar muito bem equipada e com tripulação muito treinada.

Estávamos, então, em maus lençóis. A embarcação era por demais robusta, de tamanho e porte elegante e forte, mas não tinha todos aqueles equipamentos recomendados. Aliás, confesso, eu não julgava serem assim tão necessários. Se muito já não havia navegado em todo tipo de condição no comando de uma embarcação, já o havia feito na companhia de muitos experientes comandantes. Para falar em alguns, os melhores, cito Joshua Slocum, Aleixo Belov, Roberto Barros, Knox Johnston, John Wray, para não estender a lista.

Assim, voltando à equipagem do barco e à fala de quem ficaria em terra, com uma pontinha de boa inveja talvez, o barco não dispunha nada mais do que uma boa bússola, um eco-batímetro – que nos indica a profundidade, cartas náuticas da região a ser navegada, um rádio a pilha daqueles antigos e um motor que funcionava muito bem depois de ligado. Sim, pois as baterias sempre eram uma surpresa e, para desespero de quem conheceu os antigos motores que tinham recursos para serem acionados com uma simples manivela, depender de baterias em momentos derradeiros, era algo desesperador.

E a tripulação era composta por dois exímios velejadores de regatas e eu, comandante do navio, com toda a experiência já citada. Cabe salientar, talvez, que as viagens sob o comando dos experientes comandantes acima, eu as fiz no conforto de uma cama quentinha, com uma xícara de café ao lado, deleitando-me nas páginas dos eternos portadores de sonhos, aventuras, esperanças: os livros.

Mas insisto, tal experiência quando havida como eu as fiz e ainda faço, dá a experiência e conhecimentos necessários. Tanto que o resultado da viagem… Buenas, vamos seguir a ordem cronológica.

Voltemos então à narrativa, deixando tais questões sobre experiência anterior para os momentos de busca de emprego e coisa e tal. Afirmo que meu navio estava devidamente equipado, preparado e com uma tripulação de alto gabarito para a viagem proposta. Até porque, tal percurso, não é lá essas coisas, nada assim tão assustador.

Partimos do atracadouro onde o navio descansava após a reforma e manutenção numa manhã de sol, dia de semana, poucas pessoas no clube para acompanhar, desejar sucesso ou agourar. Nosso rumo era claro e o trajeto até a saída do Guaíba o pátio de casa.

Vento sul, o que desagradava, com intensidade algo além do que seria recomendada. Após a euforia da saída, rumo a Florianópolis, onde o barco ficaria um a dois anos navegando por águas azuis, começamos as arrumações de bordo. As atividades num veleiro são contínuas no sentido de estarmos sempre atentos às condições climáticas. Tudo tem de estar devidamente afixado, amarrado, para que nenhuma surpresa ocorra.

Assim amarramos o bote na proa cuidando para que não atrapalhasse as manobras das velas de estai. Reorganizamos os armários, verificamos a situação do motor, mais uma revisada nas tubulações de óleo diesel e água de refrigeração. Amarramos a porta do frigobar, pois o gancho que deveria mantê-la fechada não estava cumprindo seu papel. Isso pronto, velas reguladas, motor ligado escorando a navegada, seguimos nosso rumo, passando o limite do rio e entrando na Lagoa ainda no início da tarde.

Lagoa encrespada, ondulações pela proa, num tom barrento muito do feio. Era este nosso mar, o chamado Mar de Dentro. A tarde transcorreu tranqüila. Fizéramos um lanche no almoço e agora era hora de pensar em abastecer os porões. Éramos três navegantes famintos. Claro que o resultado na cozinha foi ótimo. A fome é o melhor tempero para o cozinheiro. Imaginem numa condição de barco inclinado e balançando bastante. O que saísse da panela seria um manjar inigualável naquela hora.

Passamos a noite com o mar contra, barco mantendo uma boa navegada, rumo certeiro, tudo tranqüilo. Chegamos ao portão do canal da Feitoria ainda noite, esperamos que o dia se mostrasse para entrarmos no canal. Naquela época ainda tínhamos o chamado paliteiro. Eram estacas, uma infinidade delas, colocadas por todo lado para colocarem-se nelas as redes de pesca ou armadilhas para camarão. Tudo de bom para os pescadores. Para a navegação, um simples descuido, naufrágio consumado.

E não havia muito respeito em relação aos alinhamentos do canal. Algumas estacas, embora os donos afirmassem que não as haviam colocado no canal, pareciam que cismavam em fugir para dentro de seus limites.

Entramos no canal já com a luz do dia chegando. Alguma nebulosidade ao amanhecer, mas logo o sol começou a se mostrar em todo seu esplendor. Fizemos o rumo do canal muito lentamente, esperamos por duas vezes que navios de maior porte passassem e depois seguíamos nosso rumo. Em algumas situações víamos ao lado do barco, restos de estacas quebradas na linha d`água, pronta a causar o fim de qualquer viagem.

Avistamos Rio Grande ainda cedo, mas chegamos lá ao final do dia. Cansados pela tensão da última parte da rota, pela noite de sono não dormida ou mal dormida. Afinal a primeira noite a bordo, gera uma série de expectativas. Deixa-nos a todos ligados e não conseguimos pregar os olhos de forma condizente. Isto foi bom, pois a noite passada no Iate Clube de Rio Grande foi de descanso.

Para nosso desagrado, o vento não estava firme e, como nossa saída ao mar recomendava um vento do quadrante sul de pelo menos dois dias de duração, resolvemos esperar que ele viesse. As previsões davam-nos conta de dois a três dias de espera, que acabou em mais de semana.

DICAS DO VIAGEIRO: Há empresas que fazem passeios por recantos da Lagoa dos Patos partindo de Tapes, de Pelotas ou de Itapoã em Viamão. Normalmente estes roteiros só funcionam no verão.

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