Rio Guaíba: A vida em um veleiro

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Muito diverso de outros tipos de viagens, um veleiro nos proporciona um mundo de emoções e atividades diferentes das experimentadas em outros tipos de viagens. Temos toda uma atividade necessária no manejo da embarcação, o contato com os elementos, aproveitamento do melhor combustível – o vento. E a possibilidade de outras atividades não permitidas em outros meios de transporte.

Sempre costumei dizer que em diversos meios de transporte, e falava isto comparando principalmente com os deslocamentos em lanchas, aviões e ônibus, temos nosso lugar de saída e o destino. Aí é que teremos nosso lazer.

Em um veleiro o conceito é bem outro. A própria viagem, o deslocamento, são parte do lazer e, talvez, o mais importante. Não raro saímos em uma navegada sem um destino certo, apenas navegar, sentir o vento, o balanço das ondas, o tempo livre. Neste percurso, conforme a embarcação, podemos preparar uma refeição, almoçar, bebericar algo antes e após, pescar, fotografar e, até mesmo, nadar em volta do barco. O destino não importa. O que se curte é o percurso.
E isto se dá também pelo tempo envolvido. Fazemos uma viagem rodoviária de Rio Grande a Florianópolis, pra modo de comparação, em cerca de dez horas, mais ou menos. De veleiro este tempo muda para 60 horas ou mais. Isto mesmo! Isto quer dizer dois dias e meio. Serão duas noites curtindo as estrelas, a lua, observando a via Láctea. Dois dias pescando, preparando o peixe para o almoço ou jantar, vendo as evoluções dos golfinhos, gaivotas, enfim, dois dias e meio. Buenas, e pode ser até mais, dependendo da vontade de Netuno.

Assim, para bem entender, estas razões é que me levam a dizer que uma viagem de veleiro é um mundo à parte, nada de pressa, velocidade, parada para almoço e outras coisas. Durante todo o tempo aproveitamos a viagem.

E eu tive o privilégio de fazer isto ao longo de pouco mais de cinco anos, tempo durante o qual eu morei a bordo de meu barco. Vivia no Rio Guaíba, este era meu pátio, com imensas extensões mundo afora, mantendo-se o meio líquido.

Para melhor entendimento dos leitores, viver no Guaíba e num barco significa dizer que, sempre que possível, as amarras eram soltas e o barco partia para outras paragens. Assim navegamos pelo Guaíba, pelo Delta do Jacuí, que lhe dá forma, e pela Lagoa dos Patos.

A navegada ao longo do Delta e do próprio Rio Jacuí, feita quase sempre a motor, é uma experiência bastante diferente para quem está acostumado a uma cidade do porte de Porto Alegre. Navegamos rio acima, ainda no Guaíba, adentramos por meio às ilhas do estuário e a seguir nos deparamos num mundo de aves, mata nativa e silêncio que torna difícil crer que estamos a dez minutos da cidade.

O Delta é formado por diversas ilhas com uma boa quantidade de pequenos canais que as separam, por onde se pode navegar, pescar, passar a noite. Assim, final de sexta feira, amarras soltas, pouco mais de uma hora subindo o Guaíba adentrávamos o estuário. Isto era como que mudar de referência, de mundo. Outra paisagem, sem concreto, carros, barulhos.

Outra opção de navegada, agora à vela aproveitando totalmente a natureza, era descer o Rio navegando em direção ao Sul. O Guaíba surpreende a muitos por suas dimensões, o que inclusive motiva sua nova denominação como Lago. Apenas velejar em suas águas, entre as margens da cidade de Guaíba, bairro de Ipanema e a Ponta Grossa, já é algo muito gratificante.

Não dá para deixar de observar a Ilha do Presídio ao lado do canal de navegação principal e mais para as proximidades dos lados da cidade de Guaíba. O local, muito embora guarde lembranças ruins das épocas em que lá funcionava o presídio, é muito bonito e oferece uma visão muito interessante tanto de Porto Alegre como de Guaíba. Do alto de suas rochas temos uma boa visão de quase todo o Rio. A chegada à ilha se dá pela margem oeste, em dias que não haja vento ou que este seja do leste, aproximando-se lentamente das pedras. Um pequeno cais ainda oferece alguma possibilidade de segurança para o desembarque.

Esta ilha, chamada de Ilha das Pedras Brancas guarda histórias sobre o início da Revolução Farroupilha quando teriam os revolucionários vindo da Vila das Pedras Brancas, hoje cidade de Guaíba, passado pela ilha, para depois vir combater os soldados do governo na batalha da Ponte da Azenha.

Passando a Ponta Grossa para o sul, temos na margem direita o arroio Araçá, local aprazível, entrada um pouco difícil para barcos de maior calado, mas que algum sacrifício, por vezes necessário, era totalmente recompensado. Parar às margens do arroio e passar a noite acampado, barco amarrado a uma árvore, carne na churrasqueira improvisada, luz do fogo e da lua, é tudo de muito bom.

Na margem esquerda do Guaíba, pouco mais ao Sul, temos a Ilha Francisco Manoel, carinhosamente conhecida como a Chico, administrada e preservada pelo clube Veleiros do Sul, que lá mantém uma sede para os sócios e um bom trapiche para atracação. Sempre fomos muito bem recebidos na ilha, quer pelo zelador, pelos sócios e pela própria natureza.

Mais ao sul encontramos a Vila de Itapuã, às margens do Guaíba e do arroio de mesmo nome, onde foi construída uma marina para atracação e proteção aos navegadores. Muitas excursões foram feitas até a Vila de Itapuã, com a diferença em relação às outras opções anteriores, de termos a estrutura de uma Vila organizada com bares, restaurantes e amigos que lá residem.

Partindo da Vila para o sul, costeando as margens do Rio, passamos entre o morro da Fortaleza e a ilha do Junco. Local muito bonito, canal estreito e com profundidades que passam de 50 metros. Na costa da ilha, em épocas de seca com água muito baixa no Rio, contam já terem sido avistados restos de embarcações como as utilizadas na época dos Farrapos, idos de mil oitocentos e poucos.

Ainda mais para o sul, divisa com a Lagoa dos Patos, temos à margem esquerda as praias da Pedreira, do Araçá e do Sítio, local de muitas visitas feitas. Ancorar às margens, ao abrigo da pequena baía para ventos de Norte e Leste, proporciona a ida à terra onde podíamos fazer incursões pelos morros e florestas. Hoje o local é uma reserva e não se pode mais fazer visitas como na ocasião.

Na margem oposta, frente a esta baía e já penetrando nas águas da Lagoa, temos a Ilhota da Ponta Escura. Local para pouco calado, em que muitos barcos têm dificuldades de aproximação. Minha embarcação ficava ao largo, enquanto íamos de bote até a ilha para observar a natureza, fauna e flora.

Voltando à margem esquerda, no limite com a Lagoa dos Patos, temos o guardião dos navegadores que se aventuram por estas águas: o Farol de Itapuã. Foi construído em 1860 e funciona hoje automatizado o que dispensa a figura do faroleiro. A área circundante, pertencente à Reserva Estadual de Itapuã, preserva uma vegetação nativa exuberante e elevações rochosas. Nas margens que lhe seguem, entrando para o lado da Lagoa dos Patos, temos a Praia do Tigre, pequena e protegida entre rochas, e na seqüência a Praia de Fora, local com muitas construções irregulares e ocupação ilegal.

O Guaíba, nosso Rio, agora chamado de Lago, com certeza guarda muitos outros encantos. Alguns que ainda tenho de descobrir; outros eu vi e não relatei por simples inadequação. Por vezes as palavras são muito limitadoras e não nos permitem expressar o que vemos. Ou simplesmente não temos o que expressar, pois há coisas que só valem para quem vê e vivencia. Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: Faça um passeio pelo Rio Guaíba, com barcos que partem do Cais do Porto ou junto à Usina do Gasômetro, e pela cidade no ônibus de turismo que parte também de junto da Usina

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