Ushuaia

Ushuaia

por Vanderlei Benedito Penitente Junior

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Ushuaia é a cidade mais austral do mundo, tem em torno de 80 mil habitantes, fica no extremo sul da Argentina, na ilha grande da Terra do Fogo, à margem norte do Canal de Beagle. Ushuaia significa na língua indígena dos yamanas “porto interior ao poente”. É a capital da província da Terra do Fogo, Antártida e ilhas do atlântico sul.

A natureza foi verdadeiramente pródiga para com este lugar (Ushuaia é sem dúvida um dos lugares mais bonitos do planeta), que oferece um dos cenários mais belos e cativantes que se possa imaginar, já na própria cidade as montanhas cobertas de frondosos bosques que chegam até o Canal de Beagle, oferecem uma moldura natural imponente.

Logo saindo da cidade, seja em embarcações para ver a colônia de lobos marinhos, pingüins e distintas aves que habitam as ilhas do canal, ou por terra, para chegar ao Parque Nacional Terra do Fogo, aos vales fueguinos ou zona lacustre do interior da ilha, a região oferece ao visitante uma gama de atrações e experiências incríveis e inesquecíveis.

Os principais cerros são: Valle dos lobos, Sollar Del bosque, Tierra Mayor, Llano Del Castor, Valle Hermoso, Las Cotorras, Cerro Castor, Haruwen. Huskyes siberianos, snowboard e motos de neve são atrações dentro dos cerros.

Centros de atividades invernales: Glacial Martial, Terra Mayor, Las Catorras, Valle Hhermoso, Haruwen, Llanos Del Castor, Cerro Castor, Pista Jerman (Clube Andino de Ushuaia), Solas Del Bosque, Patagônia Mia, Altos Del Valle, Laguna Del Diablo, Escuela de Esqui Ushuaia, Nunatak.

Passeios imperdiveis: Parque Nacional da Terra do Fogo, Trem do Fim do Mundo, Navegação pelo Canal deb Beagle, Museu do Presídio, Museu do Fim do Mundo, Lago Fagnano, Baía de Lapataia (ponto final da rota 3, a última estrada do fim do mundo), ponto próximo ao Estreito de Magalhaes. Baía Esmeralda, Lago Escondido, Pinguinera Isla Martillo, Cuevas Del Alvear com vistas incríveis, Cabo São Paulo, passeios a cavalos, centro Beagle.

Ushuaia está numa ilha dentro do conjunto onde se formam as Ilhas Malvinas e só existe um ponto pra se sair da ilha de carro, ao extremo norte da ilha, cerca de 240 km de Ushuaia, através de balsa. Também por isso, Ushuaia é uma cidade extremamente segura. Nela você tem a proteção da marinha , exército e aeronáutica e todo canal é protegido, além de policias militares nas ruas que dão muita segurança. O índice de delitos é praticamente zero em Ushuaia.

Vale a pena visitar toda a costa do Beagle. Ao lado do porto tem um grande supermercado com produtos, roupas, perfumes e CDs bastante em conta com de ter uma variedade bem legal. Nas dicas de viagem, indico que se deve levar pouca roupa para Ushuaia. O motivo é que ushuaia é um dos principais portos da América do sul, classificada como Zona Franca, onde Você poderá fazer compras com ótimos preços. E é um dos maiores pesqueiros do mundo (dali saem embarcações gigantescas rumo à Antártica pra pescarem merluza, salmão e outras espécies de peixes).

Dicas de viagem: Em Ushuaia me hospedo da Hosteria Bella Vista, é de uma brasileira, Elenilda Teixeira, casada com um argentino fiscal do tribunal de contas em Ushuaia. Elenilda é bahiana, uma grande amiga, prestativa, e resolve tudo que preciso em Ushuaia, desde a locação de carros até os passeios.

Sua Hosteria, a 5 km do centro, é bastante aconchegante. O aluguel de carro é feito pela localiza rent a car em Ushuaia (rua Sarmiento, 21. Telefone 02901 437-780; email localizaush@speedy.com.ar). O aluguel custa em torno de 180 pesos o que equivale em torno de 85 reais o dia, livre de kilometragem. A gasolina em torno de 2,10 pesos= R$ 1,20/litro e pode se dizer que é pura. Os carros fazem cerca de 18 km/litro. Não precisa de muita burocracia pra alugar um carro, lembrando que a carta nacional vale sem problema algum. E com o carro faço todos os passeios compensando em muito, pois não preciso me deslocar de taxi. Tenho como experiência levar pouca roupa mesmo no inverno, o extritamente necessário. Existem vários lavatórios que cobram cerca de 20 pesos o cesto com 8 peças em torno de 10 reais. Para acesso a telefone, usar dos locutórios (alguns possuem diferença enorme dos outros), mas todos estão na rua San Martin que é a principal de Ushuaia, e está em torno de 0.80 centavos de peso o minuto ~ R$ 0,40. Recomendo levar o notebook pois todos os hotéis possuem wirelles e você pode ficar conectado 24 horas com MSN ou skype

Dicas de Compras: uma dica importante antes de comprar perfumes faça o passeio das ilhas até o Farol do Fim do Mundo porque você ganha um desconto de 10% pra compra de perfumes no principal dutty free de Ushuaia. Um exemplo: no freeshopp do aeroporto você paga um “212 masculino” de 100 ml 67 dolares e em Ushuaia vc paga 52 dolares. Se você fizer o passeio vc tem 10 % caindo pra 46 dolares. Tudo que se compra por lá fica em torno de 30 a 50 % mais barato. Creme de Vich que no Brasil custa 110 reais você pagará em Ushuaia cerca de 35 reais. Por isso também a idéia de se levar pouca roupa. Porque, com certeza, você vira lotado de perfumes e roupas.

Para o passeio de barco, recomendo o Elizabeth indicado pela Elenilda. É, sem dúvida, a melhor embarcação para o passeio. Leve uma boa máquina fotográfica digital com qualidade profissional ou semi, porque são lugares que merecem fotografias de qualidade, pois são cartões postais.

Recomendo levar dólares e cartão de crédito e pagar, tudo o que for possível, com cartão porque na conversão vem como dólar oficial na cotação do dia. O dólar esta em torno de 4 pesos, você troca o dólar em casas de câmbio em Ushuaia pelo preço do dia (que vale a pena) e usa somente para o necessário como locutórios , alguma bebida , coisas poucas.

A comida em Ushuaia é bastante apreciada e barata. Um rodízio de cordeiro e bovino está em torno de 60 pesos. Gosto muito do restaurante La Estância Parrillada. Um lugar para se comer dia-a-dia se chama Tante Sara, na rua san Martin. Tem uns alguns restaurantes e lanchonetes que servem pratos diários baratos e lanches. No começo da san Martin, numa sorveteria perto da escola Dom Bosco, tem uma batata frita que sem dúvidas é a melhor batata frita que já comemos.

Restaurante Lollas também é muito procurado e muito bom. Não deixe de comer a truta negra e a centolla, uma espécie de carangueijo de uns 12 kilos que não tem as garras. Você come ass patas como se comesse na praia, com sabor da lagosta. É muito bom. Existem dezenas de restaurantes bons e muitos shoppings em Ushuaia.

No passeio no sentido Parque do Trem do Fim do Mundo, siga pela rota ate o seu final. Você verá lagos lindíssimos congelados e lagos sobre as montanhas e chegará ao final da rota que fica na Baía de Lapataia, ali termina a última estrada mais austral do planeta. Adiante está o Estreito de Magalhães, onde se unem os oceanos Atlântico e Pacífico.

Outra sugestão é o passeio do cemitério dos navios, onde há centenas de naufrágios, desde as primeiras embarcações vindas da Europa.

Enfim, Ushuaia é um lugar belíssimo e eu recomendo esta viagem. Se alguém precisar de mais dicas, entre em contato: Junior: tonsaafins@hotmail.com

Acampamento em Cambará do Sul e Cânion Malakara

Acampamento em Cambará do Sul e Cânion Malakara por Vitor Diniz Sott

O tédio e a monotonia que no transcorrer das horas do cotidiano acomete a nós seres urbanos, em muitos casos não pode ser aplacado com apenas uma pequena mudança na rotina ou com uma daquelas festas “super legais”.

É preciso sim uma revolução em nossa realidade e no ambiente circundante. Neste caso viajar por caminhos nunca antes trilhados é uma pedida muito mais do que sensacional. Para mim então que gosto de uma dose de aventura, mas apenas uma pitada de gastos, um acampamento é o programa ideal.

Neste momento o passo mais importante já havia sido dado, tomar a decisão de viajar. Tive consciência de que eu precisava urgentemente de uma viagem-terapia, caso contrario provavelmente enlouqueceria pelo trânsito, a vizinhança e pelos demais causadores de sofrimento dos conglomerados metropolitanos.

Tínhamos a vontade, porém faltava-nos saber qual seria nosso destino. Conversando com um casal de amigos, encontramos companheiros de viajem que tinham uma sugestão maravilhosa. Acampar nas intermediações do cânion Malakara localizado no município de Cambará do Sul, berço deste e de outros dois grandes cânions do Rio grande do Sul. Em comparação com os cânions Fortaleza e Itaimbezinho, o Malakara não tem nenhuma estrutura de acesso e para chegar até ele é necessária muita disposição para caminhar no mínimo duas horas e meia por entre fazendas, campos, terreno pedregoso e muitas subidas. Eu, minha namorada e nosso casal de amigos, que eram também guias, chegamos ao local de acampamento com a lua a nos espreitar e o frio aumentando a cada momento.

O Cânion

Cânion Malakara

Armamos nossas barracas na escuridão, cerca de 200 metros do cânion, em uma pequena clareira rodeada de árvores no pé de um morro e a beira de um simples córrego que na extensão de seu curso formava uma linda e majestosa cachoeira a se derramar por entre as fendas do Malakara.

O Cânion – Outra vista

Boa alimentação, ótima conversa e uma noite muito tranqüila precedeu uma manhã ensolarada e um desjejum acompanhado de uma visita inusitada. Fervíamos leite e eu me direcionava para a água com alguns copos e talheres a serem limpos. Subitamente minha atenção é capturada por um ser que não constava em meus registros de memória.

Nosso Acampamento

Cambara do Sul Cânion Malakara

Acampamento no Malakara

Fiquei parado, confuso, pensando o que poderia ser aquilo, que perto de mim saciava sua sede nas águas gélidas daquele límpido lajeado. Parei com o que estava fazendo e chamei meus companheiros para vislumbrar o que eu vislumbrava e sentir o que sentia. Entusiasmo, inquietação e uma dose de ansiedade tomou conta do grupo, porém a surpresa maior foi perceber que o animal não sentia medo das pessoas e sorrateiramente se aproximava. À medida que chegava mais perto vi sua pelagem cinza e dourada com um rabo peludo e seu focinho alongado. Com um porte de um pequeno cachorro, notamos que o Grachaim não estava ali por nossa causa, mas sim motivado pelos anseios de uma farta refeição. Assim como no zoológico, mantidas as relativas proporções, não se deve dar comida aos animais, pois além da intenção de manter intacta a flora intestinal do bicho não queríamos ter a incomodação de atrair parentes e familiares do meliante. Antes que conseguisse usurpar nossos mantimentos pedimos a ele que gentilmente se afastasse, porém como nosso cortês pedido não foi atendido, tivemos de usar estratégias mais intimidadoras.

Nosso visitante

cambara do sul

Um ilustre visitante

Com os corpos alimentados e os espíritos sedentos, deixamos nosso acampamento para explorar esteticamente as grandes obras que a natureza construíra durantes muitos milênios. Primeiro conhecemos o imponente cânion, que de maneira magnífica é uma cicatriz na crosta terrestre do relevo local. Subimos um pequeno morro à cerca de 100 metros da boca do cânion, para apreciarmos a paisagem, refletir, conversar e, é claro, tudo isso regado por muito chimarrão. Quando findou nossa água quente, infelizmente tivemos de voltar a nosso acampamento.

Após um delicioso almoço, um sono revigorante. Já beirava final da tarde e logicamente fomos vislumbrar o crepúsculo em um dos locais mais esplêndidos que já conheci. Uma espécie de apêndice ou península de rocha adentrava a fenda do malakara. Estando na extremidade da formação tive a impressão de estava voando, porém tratei de logo desfazer este pensamento com medo de que se concretizasse, pois uma queda naquelas circunstâncias certamente seria fatal. As andorinhas em meio a uma espessa camada de nuvens que cobriam o fundo da fenda permitiram-nos ver seu espetacular show de acrobacias aéreas. O astro que nos aquecia logo se escondeu no horizonte e a noite trouxe consigo um vento gélido e preocupante. Será que logo em nosso ultimo dia, quando teríamos de desfazer o acampamento e organizar as coisas, cairia chuva e também a temperatura? A madrugada reservava muitas surpresas.

Na beira do abismo

Cambará do Sul com Malakara

Cânion Malakara

Jantamos em meio ao sopro de uma estranha brisa, que parecia preceder violenta tormenta. Divertimo-nos tomando um bom vinho e confraternizando o momento, mas ao mesmo tempo permanecíamos preocupados com o que estava por vir. O vento aumentava gradativamente, chegando a ponto de se tornar inviável permanecer fora do abrigo. Ele soprava com agressiva intensidade, se potencializando por não haver obstáculos em seu caminho.
Estávamos no pé de um morro, porém, o caminho do vento primeiro nos atingia para em seguida ser desviado pela elevação. A temperatura havia baixado muito de um dia para o outro e o vento deixava a sensação térmica ainda menor. Naquela noite percebi que a barraca que usávamos não foi projetada para aquelas condições de vento forte e muito frio. Suas hastes de sustentação envergavam feito bambu, e pelos locais mais estranhos permitia que grande quantidade de vento a invadisse. O barulho sombrio do vento e o medo de nosso abrigo ceder e rasgar fizeram de nossa noite de sono um período pouco agradável. Não dormi profundamente, apenas breves cochilos. Apesar de estarmos utilizando bons sacos de dormir e vestidos com roupas quentes, passamos frio de maneira nunca antes sentida.

O sol nasceu no horizonte e continuava ventando intensamente. Não era possível tomar café ao ar livre então tivemos de fazê-lo dentro da barraca. Esquentar o leite foi um pouco complicado. Com aquele tempo não havia muito que aproveitar do dia, e resolvemos partir. Esperamos até o sol aquecer o local e arrumamos nossas mochilas. O mais complicado foi o briga que travamos com o vento que queria de toda maneira levar para longe a lona das barracas.
Após um final de semana agitado e empolgante teríamos de voltar para a civilização. Mas antes enfrentaríamos mais de duas horas de caminhada.

Hora de ir!

Cambabá do Sul

Cambabá do Sul

Foi Maravilhoso o que passamos e o descanso que tivemos. A vista e as paisagens alimentaram nossos espíritos. Eu me sentia revigorado, mas também consternado de ter de partir. Porém se não partisse não poderia ter saudades do local e dos momentos. Queria lá ficar, mas também queria muito poder voltar para toda aquela beleza. Fomos embora e para trás deixamos momentos de muito deleite e prazer. Mas conosco levamos lembranças e laços nunca perdidos. Rememoraremos e serão revividos em cada encontro que tivermos.

Dicas do Viageiro: Leve sempre roupa quente, mesmo no verão.
Como chegar: Chega-se a Cambará vindo do sul via São Francisco de Paula ou pela BR 101 subindo via de Praia Grande.

Veja Também: Hotéis e Pousadas em Cambará do Sul

Leia mais: Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

Porto Alegre, Alegre Porto

Porto Alegre, Alegre Porto

por Beta Lima

Minha cidade por vezes me passava despercebida, relegada ao comum. O dia a dia tinha o poder de tirar a cor do meu querido e Alegre Porto.

O estrangeiro, este sim é colorido e curioso! Ah, ledo engano! Pois quando estive em Londres me apercebi deste erro. Estava lá longe conhecendo com curiosidade cada rua, cada parque, cada prédio histórico. E lindo é. Maravilhosa experiência. Mas percebi com tristeza que não conhecia tanto de minha própria cidade.

Logo após meu retorno, conheci meu namorado, Vitor, que é de cidade vizinha a minha, Novo Hamburgo, e ele foi desde sempre muito interessado quanto ao meu Porto Alegre, querendo conhecer cada canto e tudo perguntando, com sua vivaz curiosidade. Passei a me inteirar cada vez mais dos passeios turísticos, das rotas, das possibilidades e lugares. Pegava carona em seu olhar de “turista” encantado para conhecer minha cidade. Juntos conhecemos as histórias do meu Porto amado, lugares novos, lugares “enmesmados” sob novos olhares, cantos e encantos deste Porto novamente Alegre. E quando ele começava a ficar acinzentado esfregava forte os olhos para que o cotidiano não me cegasse.
Compreendi assim: novos pontos de miragem fazem a perspectiva ideal para meu Porto nunca mais perder, para mim, sua cor e sua e minha alegria.

Leia mais sobre Porto Alegre em Rio Guaíba e seus segredos – A vida a bordo de um veleiro

Laguna e Farol de Santa Marta

Laguna – Farol de Santa Marta

por Roberto Lima

Laguna

Laguna

Dezembro de 2002, quase Natal, dia claro, céu azul, temperatura ótima.

Saímos de Criciúma para um passeio até Laguna. O passeio foi bom, era domingo, a BR estava tranqüila e nós sem pressa alguma. O carro ia tão lento quanto o possível, ou tão rápido quanto o necessário.

Muito papo depois chegamos a Laguna com suas lagoas de Santo Antônio e Imaruí que lhe banham parte da costa e dão as boas vindas. No centro seu casario histórico, parada no portinho para fotos, casa de Anita, Igreja Matriz, passeios pela praça.

Muita história, fotos e papos depois, fomos ao Mar Grosso para comer peixe frito em postas, nossa predileção nesta situação. Num agradável barzinho da praia satisfizemos nosso apetite e apreciamos a movimentação de banhistas e de um garoto que aprendia a surfar, ainda na areia. Muito engraçado.

Laguna é um local muito agradável para ser visitado em qualquer época do ano, claro que no verão pode-se apreciar suas praias de Mar Grosso e Praia do Gi. O centro histórico é parada obrigatória para quem gosta de casarios que têm muito para contar. Se abrirmos bem os ouvidos, ouviremos seus sussurros.

Passeios de Escunas que saem da barra e passeiam pela orla é outra pedida. A subida ao Morro da Glória dá-nos a dimensão de toda Laguna e de seu entorno. Avista-se de lá o cabo de Santa Marta Grande, local onde tem o Farol de Santa Marta, terceiro do mundo em alcance. Para lá seguimos em nosso passeio.

Chegamos ao Farol de Santa Marta, vindo de Laguna, através da balsa que faz a ligação por sobre o canal que liga a Lagoa de Santo Antônio ao Mar. Após a passagem pela balsa, seguimos de carro por uma estrada simples, sem pavimentação, por alguns bons e empoeirados quilômetros. Mas vale a pena toda a poeira!

O morro do Farol abriga uma vila, outrora somente de pescadores, que tem muita história e beleza natural. Do alto do morro a vista é deslumbrante. Alguns murais colocados lá junto aos muros da sede da Marinha, contam algo da história do lugar e das pessoas que o habitaram no início.

Não é possível chegar à base do Farol que fica protegida pelos muros da área reservada da Marinha do Brasil, nem mesmo subir suas escadarias. Posso contar, entretanto, que em outro tempo tive a oportunidade de subir até o topo e ver não só a vista como toda a máquina que dá proteção aos navegadores. Uma engenhoca muito interessante e valiosa para os que estão no mar.
Do Morro do Farol seguimos para o Sul. Passamos por lugares de belas e diferentes paisagens. Um grande e protegido Sambaqui foi parada para observação e fotos. Passamos pela barra do Camacho e chegamos a Jaguaruna. A estrada é parte de areia e parte de terra natural, mas todo o percurso é bom e vale o passeio. Voltamos para Criciúma no final de tarde com o astral renovado. Lugares bonitos, históricos e praia. Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: A parada no centro histórico é obrigatória.

Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

por Roberto Lima

A serra sempre é um local fascinante. Os campos de cima da serra com sua vegetação característica, nevoeiros, frio mesmo no verão, ao menos durante a noite, as propriedades divididas por taipas de pedra. Algo de muito bonito com um encanto particular.

Saímos de Criciúma com um destino muito diferente, bonito e imponente pela frente. Os cânions de Itaimbezinho e Fortaleza. Além dos outros que fazem parte dos mesmos conjuntos dos Aparados da Serra. A cidade mais apropriada para hospedagem e sede das expedições para os cânions só pode ser Cambará do Sul.

Clima frio nas noites de Carnaval, mas um bom sol e certo calor durante o dia, nevoeiro para completar o visual. Chegamos início da tarde no Itaimbezinho e fomos passear pelo parque. Tudo organizado, paga-se ingresso agora, estacionamento e trilhas orientadas para os passeios.

O visual do cânion é de difícil descrição. Só mesmo vendo, mas vamos a uma tentativa. Estamos num relevo de altitude, cerca de 1000 metros acima do nível do mar. Campos verdejantes se descortinam por uma imensidão que os olhos perdem na distância. De repente se avistam imensas fendas no chão com larguras e profundidades assustadoras. Mais de 800 metros de profundidade! Lá no fundo destes vales, por assim dizer, vê-se tudo muito pequeno. As águas da cachoeira que despencam de suas bordas tornam-se como que fumaça chegando ao fundo do vale. Os costões são de uma beleza singular com sua formação rochosa e a vegetação que se desenvolveu e que ali se fixa como que testemunhando o tempo. Sobe do fundo destes vales um vento frio carregado de nevoeiros a partir de certo horário. Tudo magnífico, imenso, belo!

Saímos do Itaimbezinho e fomos em busca de um hotel ou pousada para ficar. Nossa viagem não estava planejada propriamente, algo que é de nosso costume, aventurar-se simplesmente e, estando bom, vamos vendo como resolvemos as coisas. Era meio de feriadão e tudo estava lotado, ou quase tudo. Acabamos ficando em um antigo hotel, belo e descuidado prédio na avenida da cidade, meio desanimador pela aparência, mas com um atendimento muito acolhedor de sua proprietária.

À noite saímos para jantar num restaurante típico gaúcho de cima da serra. Uma canha para aquentar o vivente, fogo para manter o ambiente! Fogão a lenha, churrasqueira e carnes era a pedida certa. Muita comida de panela, tudo muito leve e saudável. Um bom vinho. O local é muito bem freqüentado, estava cheio e tinha uma música de gosto e com volume nos trinques. Um acordeom com o grupo de violeiros fez o fandango ficar no nível!

O café da manhã do hotel foi algo à parte. Ao chegarmos no salão tomamos conhecimento das normas da casa. Primeiro que nós perdemos o jantar da noite anterior no próprio hotel, o que nem mesmo sabíamos que haveria. Mas pareceu que os outros também não. Foram se reunindo, juntando alguns víveres e fizeram um bom jantar no fogão a lenha todos reunidos. Pena que perdemos isto, pareceu pelo tom da prosa que esteve muito animado tal jantar. Fica para a próxima.

Segunda norma é que o salão de café estava em desuso por iniciativa dos próprios hóspedes e com o apoio da dona da casa. Estavam todos na cozinha, grande mesa ao centro, fogão a lenha aceso e todos os ingredientes do café a disposição. Era só servir-se! Claro, preparar o café, aquentar o leite, cortar salame, queijo e tudo o mais. Ou seja, algo por demais caseiro e inusitado para quem tem o hábito de ir a hotéis ou pousadas com o atendimento característico de café da manhã. Mas tudo muito bom! Inclusive o chimarrão que corria de mão em mão.

De lá saímos para ir ao Cânion da Fortaleza. Ouvimos muitos desencorajamentos, pois para se ir até lá e ver algo antes do nevoeiro, teríamos que ter saído muito cedo, disseram-nos. Mas, com toda a fé de que iríamos ver o cânion, insistimos e seguimos para lá.

São cerca de 20 Km de estradas de terra e pedra muito do ruim. Nosso carro em nada era feito para aquele tipo de terreno, mas nenhuma dificuldade nos perturbou. Chegamos ao Cânion por volta de 11 horas e fomos direto ao topo da última montanha. E o nevoeiro? Que nada, tomamos inclusive, uma certa queimadura do sol, mas isso só notamos à noite.

Do alto da montanha avistamos o mundo ao longe. Torres, o mar oceano, quase a África! Caminhamos até a última montanha por entre uma vegetação por vezes densa e com uma certa dose de aventura. Irresponsabilidade, talvez, pois se o nevoeiro se formasse estaríamos em muito maus lençóis.

Curtimos bastante o visual, o silêncio, o murmurar do vento. Depois de parecer estar voando no alto dos penhascos, retornamos à base e rumamos para a Pedra do Segredo. Muita sorte ter visto o Cânion sem nevoeiro e ainda queríamos mais. Já eram cerca de 14 horas, mas seguimos até o ponto de parada na estradinha e dali a pé.

Novo passeio de sucesso e com visuais deslumbrantes. Na verdade não podíamos crer que a natureza nos pudesse privar daquilo tudo. Aproveitamos o visual, fotos, o ar das montanhas, o sol, certo calor até. Retornamos ao carro e saímos de lá já após as 15h30. O nevoeiro, então, começava a se formar.

No caminho uma pausa no Paradouro Fortaleza para um lanche, almoço, tudo junto. Local muito bonito, bom atendimento no estabelecimento. Uma canha pra aquentar, um ótimo lanche, chocolate quente, já era a pedida.

Daí foi o retorno para casa. Mais um belo passeio. Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: Leve sempre roupa quente, mesmo no verão.

COMO CHEGAR: Chega-se a Cambará vindo do sul via São Francisco de Paula ou pela BR 101 subindo via de Praia Grande.

Veja também: Hotéis e Pousadas em Cambará do Sul

Leia mais: Acampamento em Cambará do Sul – Cânion Malakara.

Canela que eu vi

Canela, Rio Grande do Sul  por Roberto Lima

Estive em Canela tantas vezes que não vou conseguir separar aqui a história de um passeio para contar. Na verdade creio que vou condensar o que lembrar sobre a cidade, talvez a considerando como minha durante algum tempo.

Vamos iniciar pelos caminhos que a separam de Porto Alegre, então minha cidade de moradia. Temos algumas opções para ir a Canela, vamos descrever cada uma delas. A primeira é seguir até Novo Hamburgo, dobrar para Taquara, daí subir para Gramado e chegar a Canela.

Este percurso é bastante seguro, pois as estradas são mais novas e parte em pista dupla. No caminho passamos por outras cidades onde podemos aproveitar alguns atrativos. No trecho entre Novo Hamburgo e Taquara passamos pelo Morro do Ferrabraz onde poderemos ver, em dias propícios, o vôo das águias em asas deltas ou paraglider. Entre Taquara e Gramado temos as fábricas e lojas de calçados onde se pode fazer ótimas compras quer em questões de preço como de qualidade. Alguns restaurantes pelo caminho também são bons motivos de parada.

Outro roteiro é passar Novo Hamburgo e seguir pela BR116, indo a Nova Petrópolis, Gramado e Canela. Neste caminho temos uma estrada mais estreita após Novo Hamburgo com trechos sinuosos lentos, mas que é compensado pela beleza e cuidados ao longo da via. A plástica dos plátanos ao longo de quase todo o caminho, com seus matizes em tons de cobre e verde, conforme a época do ano, nos dão um belo espetáculo. Nas cidades deste caminho temos opções de paradas para lanches, para apreciar artesanatos, quedas d`água ou para pequenas compras.

A terceira opção de acesso a Canela é seguir para Novo Hamburgo, manter-se na BR116, até passar a cidade de Morro Reuter onde, toma-se à direita para passar por Santa Maria do Herval e daí seguir para Gramado e Canela. Esta opção tão bela quanto a anterior nos mostra um caminho mais curto em distância, muito bonito, mas com estradas mais estreitas e parte sem pavimentação. Temos o privilégio de poder apreciar algumas cidadelas bem do interior, seus armazéns típicos onde ainda se ouve o dialeto alemão que era falado pelos imigrantes que vieram habitar a região. Em Santa Maria do Herval pode-se apreciar uma bela cachoeira de mais de 100 metros de altura e, seguindo um caminho infelizmente um tanto mal cuidado, passar por baixo da queda d`água.

Vamos então a Canela! Cidade que tem uma imensa quantidade de atrativos para o turista, quer sejam naturais ou produzidos para bem atender a quem lá chega. Uma quantidade de hotéis, pousadas e restaurantes que em poucas cidades se encontra. Quantidade e qualidade, devo frisar. E mais os cafés coloniais com uma variedade de pratos que impede qualquer um de experimentar a todos em uma única visita.

Alguns lugares a visitar são do conhecimento da maioria das pessoas, pois constam em qualquer guia de viagem, tais como a Catedral de Pedra onde se realiza a chegada do Papai Noel durante o período do Sonho de Natal. Espetáculo muito bonito e que congrega não apenas turistas, como também os moradores da cidade. Outro atrativo muito conhecido, talvez o ponto turístico mais importante do sul do Brasil, é a Cascata do Caracol, abrigada em um parque muito organizado, limpo e bonito. Há uma escadaria para quem quer se aventurar a descer à base da cascata. Mas é bom avisar que tem mais de 900 degraus e que não deve ser utilizada a menos que o preparo físico do vivente esteja de acordo. Dentro do mesmo parque existe a sede do Projeto Lobo Guará de preservação das espécies da região.

Ao lado deste parque, em outro empreendimento, temos um teleférico que vai do alto de um morro até próximo à base da cascata. Não tão próximo quanto poderíamos desejar, mas que nos possibilita uma vista muito bonita e diferente da Cascata.

Retornando para Canela temos uma parada obrigatória no Castelinho do Caracol, uma edificação histórica construída ainda pelos imigrantes e que não utiliza pregos na sua construção. Além de visitar as dependências do Castelinho, que guarda peças de época como um museu, é bom manter um espaço no estômago para degustar um “apfelstrudel” com chá que é servido com muita atenção pelos proprietários do local.

Em toda a avenida Borges de Medeiros que leva da entrada da cidade até a frente da Catedral, temos uma grande quantidade de lojas de artesanato, malhas, roupas em couro e outras que fazem do local um ponto para compras ou para um simples passeio. Todas as ruas têm boa sinalização e o povo é muito educado em matéria de respeito ao turista.

Ainda cabe destacar mais alguns atrativos que não são assim tão populares. As ruínas do Cassino que fica no alto de um morro para trás da Catedral de Pedra, obra que foi abandonada quando da proibição dos jogos de azar no país. O empreendimento abrigaria um hotel com seus restaurantes e o cassino, dentro de um parque muito grande. Na época era dos maiores empreendimentos que havia no Rio Grande do Sul e contava com apoio e financiamento do Governo Federal, via Caixa Econômica.

Há um parque que fica na estrada que liga Canela a São Francisco de Paula, pouco após a saída da cidade. Local bonito e onde se realizam grandes festas populares e religiosas.

Os morros Pelado, Queimado e Dedão. Lugar magnífico pelo visual que proporciona em dias sem nevoeiro. De lá avistamos todo o vale do Quilombo, num ângulo talvez ainda mais bonito daquele que temos do mirante do Hotel Laje de Pedra. A diferença entre os dois lugares é o acesso. Ao mirante do Hotel Laje de Pedra vai-se por via pavimentada, ao contrário dos Morros.

Retornando deste passeio temos o Parque das Sequóias para ser visitado. Parque que abriga uma pousada e muitas trilhas para observação de espécies de árvores muito antigas, além das aves da região.

O Vale do Quilombo é mais um atrativo que quero citar. Abriga algumas pousadas, restaurantes e uma vinícola que deve ser visitada. Em todo o vale temos propriedades rurais muito bem cuidadas e organizadas. Suas estradinhas são de solo natural, mas têm boa qualidade além de estarem num local bonito e aprazível.

Esta foi a Canela que eu vi e que não vi também. Explico: são uma característica da região os nevoeiros em qualquer estação do ano. Assim, mesmo no verão, é bom levar algum agasalho e estar preparado para não ver parte da cidade em alguns horários do dia. Vi um painel publicitário sobre Canela que mostrava uma fotografia que apresentava uma casa típica com seus pinheiros num dia de nevoeiro. Estes elementos, em conseqüência, pouco apareciam na imagem. E o texto dizia: “Canela é bonita até quando não se vê”.Com certeza!

Até a próxima viagem!

COMO CHEGAR: Vindo de Porto Alegre siga pela BR 116 até Novo Hamburgo, daí há opções conforme descrevi acima.

DICAS DO VIAGEIRO: Faça reservas para sua hospedagem para não ter surpresas, principalmente na alta estação: inverno e período de Natal.

GUIA CIDADES: Canela, Gramado, São Francisco de Paula

Veja também:

Hotéis e Pousadas em Canela; Hotéis e Pousadas em Gramado; Hotéis e Pousadas em São Francisco de Paula

Travessia Porto Alegre a Rio Grande

Travessia Porto Alegre a Rio Grande por Roberto Lima

Rio Guaíba – A vida em um veleiro Rio Grande a Florianópolis

Esta história de viagem se deu lá por 1994. A viagem toda vai de Porto Alegre até Florianópolis num veleiro oceânico de 43 pés ou 13,2 metros, dois mastros, pesando 12,5 toneladas e com três tripulantes a bordo. Aqui relataremos a etapa que compreende o trecho de Porto Alegre até Rio Grande, ao longo da Lagoa dos Patos e Rio Guaíba. O relato continuará com a etapa Rio Grande a Florianópolis.

Após muitos preparativos, o barco com pintura nova, convés consertado, velas revisadas, estávamos prontos para partir para uma grande aventura. Esta aventura a que me refiro, iria nos levar até Florianópolis. Claro que antes tínhamos a travessia de Porto Alegre a Rio Grande para ser feita.

Esclareço, para os menos experientes na arte da navegação – e que nunca se atentaram a este detalhe, que para irmos de Porto Alegre ao Norte pelo mar teremos, necessariamente, de ir a Rio Grande. Não há outra saída por água, ainda. O que fez Garibaldi durante a Revolução Farroupilha foi deslocar seus batelões sobre rodas, pelo campo e rebocado por uma tropa de bois, das proximidades de Palmares do Sul até Tramandaí. Para tomar este percurso ele navegou rumo Norte pela Lagoa do Casamento que é a parte norte, por assim dizer, da Lagoa dos Patos e que banha as costas de Palmares do Sul.
Então, muito já havíamos navegado pelo Rio Guaíba e a Lagoa dos Patos, mas ir além da fronteira que separa nossa querida Lagoa do mar, era uma peripécia que a muitos assustava. Mesmo aos velejadores mais audazes.

A idéia recorrente nos clubes náuticos da região, e que não é de todo errada visto ser aprovada por tantos navegadores que já estiveram nos oceanos do sul do Brasil, abaixo do temido cabo de Santa Marta, mesmo àqueles profissionais, é de que o oceano sul é algo por demais perigoso e uma embarcação de cruzeiro teria de estar muito bem equipada e com tripulação muito treinada.

Estávamos, então, em maus lençóis. A embarcação era por demais robusta, de tamanho e porte elegante e forte, mas não tinha todos aqueles equipamentos recomendados. Aliás, confesso, eu não julgava serem assim tão necessários. Se muito já não havia navegado em todo tipo de condição no comando de uma embarcação, já o havia feito na companhia de muitos experientes comandantes. Para falar em alguns, os melhores, cito Joshua Slocum, Aleixo Belov, Roberto Barros, Knox Johnston, John Wray, para não estender a lista.

Assim, voltando à equipagem do barco e à fala de quem ficaria em terra, com uma pontinha de boa inveja talvez, o barco não dispunha nada mais do que uma boa bússola, um eco-batímetro – que nos indica a profundidade, cartas náuticas da região a ser navegada, um rádio a pilha daqueles antigos e um motor que funcionava muito bem depois de ligado. Sim, pois as baterias sempre eram uma surpresa e, para desespero de quem conheceu os antigos motores que tinham recursos para serem acionados com uma simples manivela, depender de baterias em momentos derradeiros, era algo desesperador.

E a tripulação era composta por dois exímios velejadores de regatas e eu, comandante do navio, com toda a experiência já citada. Cabe salientar, talvez, que as viagens sob o comando dos experientes comandantes acima, eu as fiz no conforto de uma cama quentinha, com uma xícara de café ao lado, deleitando-me nas páginas dos eternos portadores de sonhos, aventuras, esperanças: os livros.

Mas insisto, tal experiência quando havida como eu as fiz e ainda faço, dá a experiência e conhecimentos necessários. Tanto que o resultado da viagem… Buenas, vamos seguir a ordem cronológica.

Voltemos então à narrativa, deixando tais questões sobre experiência anterior para os momentos de busca de emprego e coisa e tal. Afirmo que meu navio estava devidamente equipado, preparado e com uma tripulação de alto gabarito para a viagem proposta. Até porque, tal percurso, não é lá essas coisas, nada assim tão assustador.

Partimos do atracadouro onde o navio descansava após a reforma e manutenção numa manhã de sol, dia de semana, poucas pessoas no clube para acompanhar, desejar sucesso ou agourar. Nosso rumo era claro e o trajeto até a saída do Guaíba o pátio de casa.

Vento sul, o que desagradava, com intensidade algo além do que seria recomendada. Após a euforia da saída, rumo a Florianópolis, onde o barco ficaria um a dois anos navegando por águas azuis, começamos as arrumações de bordo. As atividades num veleiro são contínuas no sentido de estarmos sempre atentos às condições climáticas. Tudo tem de estar devidamente afixado, amarrado, para que nenhuma surpresa ocorra.

Assim amarramos o bote na proa cuidando para que não atrapalhasse as manobras das velas de estai. Reorganizamos os armários, verificamos a situação do motor, mais uma revisada nas tubulações de óleo diesel e água de refrigeração. Amarramos a porta do frigobar, pois o gancho que deveria mantê-la fechada não estava cumprindo seu papel. Isso pronto, velas reguladas, motor ligado escorando a navegada, seguimos nosso rumo, passando o limite do rio e entrando na Lagoa ainda no início da tarde.

Lagoa encrespada, ondulações pela proa, num tom barrento muito do feio. Era este nosso mar, o chamado Mar de Dentro. A tarde transcorreu tranqüila. Fizéramos um lanche no almoço e agora era hora de pensar em abastecer os porões. Éramos três navegantes famintos. Claro que o resultado na cozinha foi ótimo. A fome é o melhor tempero para o cozinheiro. Imaginem numa condição de barco inclinado e balançando bastante. O que saísse da panela seria um manjar inigualável naquela hora.

Passamos a noite com o mar contra, barco mantendo uma boa navegada, rumo certeiro, tudo tranqüilo. Chegamos ao portão do canal da Feitoria ainda noite, esperamos que o dia se mostrasse para entrarmos no canal. Naquela época ainda tínhamos o chamado paliteiro. Eram estacas, uma infinidade delas, colocadas por todo lado para colocarem-se nelas as redes de pesca ou armadilhas para camarão. Tudo de bom para os pescadores. Para a navegação, um simples descuido, naufrágio consumado.

E não havia muito respeito em relação aos alinhamentos do canal. Algumas estacas, embora os donos afirmassem que não as haviam colocado no canal, pareciam que cismavam em fugir para dentro de seus limites.

Entramos no canal já com a luz do dia chegando. Alguma nebulosidade ao amanhecer, mas logo o sol começou a se mostrar em todo seu esplendor. Fizemos o rumo do canal muito lentamente, esperamos por duas vezes que navios de maior porte passassem e depois seguíamos nosso rumo. Em algumas situações víamos ao lado do barco, restos de estacas quebradas na linha d`água, pronta a causar o fim de qualquer viagem.

Avistamos Rio Grande ainda cedo, mas chegamos lá ao final do dia. Cansados pela tensão da última parte da rota, pela noite de sono não dormida ou mal dormida. Afinal a primeira noite a bordo, gera uma série de expectativas. Deixa-nos a todos ligados e não conseguimos pregar os olhos de forma condizente. Isto foi bom, pois a noite passada no Iate Clube de Rio Grande foi de descanso.

Para nosso desagrado, o vento não estava firme e, como nossa saída ao mar recomendava um vento do quadrante sul de pelo menos dois dias de duração, resolvemos esperar que ele viesse. As previsões davam-nos conta de dois a três dias de espera, que acabou em mais de semana.

DICAS DO VIAGEIRO: Há empresas que fazem passeios por recantos da Lagoa dos Patos partindo de Tapes, de Pelotas ou de Itapoã em Viamão. Normalmente estes roteiros só funcionam no verão.

Rio Guaíba: A vida em um veleiro

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Muito diverso de outros tipos de viagens, um veleiro nos proporciona um mundo de emoções e atividades diferentes das experimentadas em outros tipos de viagens. Temos toda uma atividade necessária no manejo da embarcação, o contato com os elementos, aproveitamento do melhor combustível – o vento. E a possibilidade de outras atividades não permitidas em outros meios de transporte.

Sempre costumei dizer que em diversos meios de transporte, e falava isto comparando principalmente com os deslocamentos em lanchas, aviões e ônibus, temos nosso lugar de saída e o destino. Aí é que teremos nosso lazer.

Em um veleiro o conceito é bem outro. A própria viagem, o deslocamento, são parte do lazer e, talvez, o mais importante. Não raro saímos em uma navegada sem um destino certo, apenas navegar, sentir o vento, o balanço das ondas, o tempo livre. Neste percurso, conforme a embarcação, podemos preparar uma refeição, almoçar, bebericar algo antes e após, pescar, fotografar e, até mesmo, nadar em volta do barco. O destino não importa. O que se curte é o percurso.
E isto se dá também pelo tempo envolvido. Fazemos uma viagem rodoviária de Rio Grande a Florianópolis, pra modo de comparação, em cerca de dez horas, mais ou menos. De veleiro este tempo muda para 60 horas ou mais. Isto mesmo! Isto quer dizer dois dias e meio. Serão duas noites curtindo as estrelas, a lua, observando a via Láctea. Dois dias pescando, preparando o peixe para o almoço ou jantar, vendo as evoluções dos golfinhos, gaivotas, enfim, dois dias e meio. Buenas, e pode ser até mais, dependendo da vontade de Netuno.

Assim, para bem entender, estas razões é que me levam a dizer que uma viagem de veleiro é um mundo à parte, nada de pressa, velocidade, parada para almoço e outras coisas. Durante todo o tempo aproveitamos a viagem.

E eu tive o privilégio de fazer isto ao longo de pouco mais de cinco anos, tempo durante o qual eu morei a bordo de meu barco. Vivia no Rio Guaíba, este era meu pátio, com imensas extensões mundo afora, mantendo-se o meio líquido.

Para melhor entendimento dos leitores, viver no Guaíba e num barco significa dizer que, sempre que possível, as amarras eram soltas e o barco partia para outras paragens. Assim navegamos pelo Guaíba, pelo Delta do Jacuí, que lhe dá forma, e pela Lagoa dos Patos.

A navegada ao longo do Delta e do próprio Rio Jacuí, feita quase sempre a motor, é uma experiência bastante diferente para quem está acostumado a uma cidade do porte de Porto Alegre. Navegamos rio acima, ainda no Guaíba, adentramos por meio às ilhas do estuário e a seguir nos deparamos num mundo de aves, mata nativa e silêncio que torna difícil crer que estamos a dez minutos da cidade.

O Delta é formado por diversas ilhas com uma boa quantidade de pequenos canais que as separam, por onde se pode navegar, pescar, passar a noite. Assim, final de sexta feira, amarras soltas, pouco mais de uma hora subindo o Guaíba adentrávamos o estuário. Isto era como que mudar de referência, de mundo. Outra paisagem, sem concreto, carros, barulhos.

Outra opção de navegada, agora à vela aproveitando totalmente a natureza, era descer o Rio navegando em direção ao Sul. O Guaíba surpreende a muitos por suas dimensões, o que inclusive motiva sua nova denominação como Lago. Apenas velejar em suas águas, entre as margens da cidade de Guaíba, bairro de Ipanema e a Ponta Grossa, já é algo muito gratificante.

Não dá para deixar de observar a Ilha do Presídio ao lado do canal de navegação principal e mais para as proximidades dos lados da cidade de Guaíba. O local, muito embora guarde lembranças ruins das épocas em que lá funcionava o presídio, é muito bonito e oferece uma visão muito interessante tanto de Porto Alegre como de Guaíba. Do alto de suas rochas temos uma boa visão de quase todo o Rio. A chegada à ilha se dá pela margem oeste, em dias que não haja vento ou que este seja do leste, aproximando-se lentamente das pedras. Um pequeno cais ainda oferece alguma possibilidade de segurança para o desembarque.

Esta ilha, chamada de Ilha das Pedras Brancas guarda histórias sobre o início da Revolução Farroupilha quando teriam os revolucionários vindo da Vila das Pedras Brancas, hoje cidade de Guaíba, passado pela ilha, para depois vir combater os soldados do governo na batalha da Ponte da Azenha.

Passando a Ponta Grossa para o sul, temos na margem direita o arroio Araçá, local aprazível, entrada um pouco difícil para barcos de maior calado, mas que algum sacrifício, por vezes necessário, era totalmente recompensado. Parar às margens do arroio e passar a noite acampado, barco amarrado a uma árvore, carne na churrasqueira improvisada, luz do fogo e da lua, é tudo de muito bom.

Na margem esquerda do Guaíba, pouco mais ao Sul, temos a Ilha Francisco Manoel, carinhosamente conhecida como a Chico, administrada e preservada pelo clube Veleiros do Sul, que lá mantém uma sede para os sócios e um bom trapiche para atracação. Sempre fomos muito bem recebidos na ilha, quer pelo zelador, pelos sócios e pela própria natureza.

Mais ao sul encontramos a Vila de Itapuã, às margens do Guaíba e do arroio de mesmo nome, onde foi construída uma marina para atracação e proteção aos navegadores. Muitas excursões foram feitas até a Vila de Itapuã, com a diferença em relação às outras opções anteriores, de termos a estrutura de uma Vila organizada com bares, restaurantes e amigos que lá residem.

Partindo da Vila para o sul, costeando as margens do Rio, passamos entre o morro da Fortaleza e a ilha do Junco. Local muito bonito, canal estreito e com profundidades que passam de 50 metros. Na costa da ilha, em épocas de seca com água muito baixa no Rio, contam já terem sido avistados restos de embarcações como as utilizadas na época dos Farrapos, idos de mil oitocentos e poucos.

Ainda mais para o sul, divisa com a Lagoa dos Patos, temos à margem esquerda as praias da Pedreira, do Araçá e do Sítio, local de muitas visitas feitas. Ancorar às margens, ao abrigo da pequena baía para ventos de Norte e Leste, proporciona a ida à terra onde podíamos fazer incursões pelos morros e florestas. Hoje o local é uma reserva e não se pode mais fazer visitas como na ocasião.

Na margem oposta, frente a esta baía e já penetrando nas águas da Lagoa, temos a Ilhota da Ponta Escura. Local para pouco calado, em que muitos barcos têm dificuldades de aproximação. Minha embarcação ficava ao largo, enquanto íamos de bote até a ilha para observar a natureza, fauna e flora.

Voltando à margem esquerda, no limite com a Lagoa dos Patos, temos o guardião dos navegadores que se aventuram por estas águas: o Farol de Itapuã. Foi construído em 1860 e funciona hoje automatizado o que dispensa a figura do faroleiro. A área circundante, pertencente à Reserva Estadual de Itapuã, preserva uma vegetação nativa exuberante e elevações rochosas. Nas margens que lhe seguem, entrando para o lado da Lagoa dos Patos, temos a Praia do Tigre, pequena e protegida entre rochas, e na seqüência a Praia de Fora, local com muitas construções irregulares e ocupação ilegal.

O Guaíba, nosso Rio, agora chamado de Lago, com certeza guarda muitos outros encantos. Alguns que ainda tenho de descobrir; outros eu vi e não relatei por simples inadequação. Por vezes as palavras são muito limitadoras e não nos permitem expressar o que vemos. Ou simplesmente não temos o que expressar, pois há coisas que só valem para quem vê e vivencia. Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: Faça um passeio pelo Rio Guaíba, com barcos que partem do Cais do Porto ou junto à Usina do Gasômetro, e pela cidade no ônibus de turismo que parte também de junto da Usina

Travessia Rio Grande a Florianópolis

Travessia Rio Grande a Florianópolis num veleiro

por Roberto Lima

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Um tripulante teve de desistir da ida até Florianópolis, pois sua licença iria expirar antes de nosso vento chegar. Fomos a Porto Alegre e arrecadamos um novo navegador, algo menos experiente um pouco, mas grande companheiro. Se o enjôo lhe acompanhou em todo o percurso fazendo-o ficar quase todo o tempo na horizontal num beliche, ao menos mantinha sempre o bom humor, o riso fácil e agüentou bravamente as chacotas que fizemos durante toda a viagem.

Semana seguinte chegamos ao nosso navio novamente. Revisão, abastecimento de suprimentos no mercado, refrigerador cheio, revisão de velas, motor, tanques. Tudo certo. Saímos numa terça feira quase meio dia. Paramos numa empresa pesqueira e enchemos o porão de gelo. Assim como se fôssemos um pesqueiro que vai à pesca trocar o gelo por pescados. No nosso caso, tínhamos um calor muito forte do lado de fora, uma viagem incerta em duração pela frente – coisa de dois a quatro dias, comidas que necessitavam de refrigeração e, com certeza, algumas caixas de cerveja que deveriam ser mantidas prontas para o uso. Como sempre me repetiu minha mãe, quem vai ao mar se avia em terra. Sábias palavras.

Ao final da tarde, caminho da barra, não fizemos as burocracias que manda o figurino, mas fomos ao mar mesmo assim. Tivemos a grata companhia na saída de uma grande embarcação da Marinha do Brasil que, soubemos depois, se dirigia ao Rio de Janeiro.

Sair na barra sem os devidos trâmites ao lado de uma Corveta não é algo assim agradável. Contemos ainda com a angústia de uma primeira ida ao mar no comando da minha embarcação, toda a responsabilidade que isto importa, imaginem o embrulho no estômago. Mas desgraça pouca é bobagem. Ao sair na barra ouvimos algo diferente no porão. Um ruído estranho vindo da região do motor. Meu Deus, e agora?

Nosso faz tudo, foi em busca do motivo de tal som e veio com uma bela notícia. Um calço do motor havia partido. O motor passara a funcionar fora do alinhamento. E agora? Voltar? E o mico? Mico nenhum é claro, mas e o orgulho de voltar após tantos preparativos?

Qual o risco, perguntei. Vai fazer água! Isso significa que entraria água no barco. Vamos aqui definir o que de melhor ouvi sobre um barco: é uma casca de nós ou algo assim, que tem um leme, um motor ou velas e que só tem significado quando se acrescenta água. Mas devo salientar é que a água deve ficar do lado de fora. Não seria este nosso caso, a teríamos do lado de dentro também.

Avaliamos as condições de baterias e bombas e concluímos que tínhamos mais capacidade de expulsar a água do que ela de entrar. Decisão: vamos em frente! Festa a bordo, uma cervejinha para comemorar e nos fizemos ao mar, definitivamente.

No início da noite estávamos a milhas de Rio Grande. Víamos apenas as luzes. Tudo novo. O embrulho no estômago se mexia de lado a lado, nosso tripulante mais novo foi ao berço. Deu sinais de enjôo. Tudo corria bem, água entrando, mais rápido saía, tudo certo.

Navegamos a noite e o dia seguinte a motor, vento quase a zero. Estávamos num veleiro e queríamos velejar, antes de qualquer outra coisa. Mas afinal, tínhamos combustível suficiente, então isto não seria um problema. Seguimos junto à costa e perdemos contato com a Corveta. Jogamos linhas à água e pescamos algo para o jantar e almoço do dia seguinte. Nosso tripulante ainda estava de enjôo e isto diminuía a necessidade de alimentos.

Tempo tranqüilo, sol quente, apenas uma brisa suave, mas que parou ao final da tarde do segundo dia. Algum tempo mais e entrou um vento do quadrante Norte, tudo que poderia ser inesperado e indesejado. Algumas horas mais e o vento refrescou, ou seja, aumentou de intensidade. O mar começou a levantar ondas e ficou desagradável. Mar e vento contra. Nada forte, mas contra!

Colocamos, por segurança, rumo à África e escoramos a navegada na vela e motor. Isto faria com que fôssemos para frente em nosso destino com uma boa velocidade. Passamos a noite muito molhados, a onda jogava borrifos por sobre o barco e molhava toda a coberta. Dormimos no convés para podermos vigiar navios e as condições de tempo. Se algo piorasse teríamos de tomar decisões a respeito das velas e rumo.

Ao amanhecer, longe estávamos da costa a qual não era mais avistada. Tomamos um café para aquecer os ossos e o cérebro. Roupa trocada, agora secos, decidi colocar o barco no rumo da costa e, tanto quanto possível, para o Norte. Pareceu mágica, manobra de mudança de rumo feita, o vento parou de vez! Ficou somente a onda.
Fiz os cálculos de posição e colocamos o barco no rumo do Farol de Santa Marta. Navegamos o dia tranqüilos e avistamos o Farol próximo do meio dia. Muito ao longe. Novas linhas n`água, peixes para o almoço. Avistamos um outro veleiro seguinte na mesma rota e tentamos contato pelo rádio. Só para um alô, mas nada conseguimos. Algo frustrante. Avistar outro barco numa navegada deste tipo, embora com pouco tempo no mar, leva-nos a querer dar um alô, um cumprimento.

Lembrei de uma fala: “Houve tempo em que dois navios que se encontrassem no mar baixavam o pano e batiam um papo; depois, no momento de seguir seus rumos diferentes, saudavam-se com um tiro de canhão. Hoje em dia as pessoas mal têm tempo de conversar, mesmo que seja no meio do mar, onde qualquer notícia é novidade. Acabou-se a poesia dos velhos cargueiros; é uma vida prosaica esta em que não se tem mais tempo de dar um bom-dia àqueles que passam por nós!” Isto fora constatado e dito por Slocum, lá pra setembro de 1892, mas ainda frustra.

Meio da tarde começou uma formação muito escura no quadrante Sul. Um bom vento destes lados é o que queríamos desde a saída, mas agora ele nos colocaria na barra Sul da ilha de Santa Catarina, Florianópolis, já noite feita. Isto seria muito impróprio. Como estávamos navegando sem pressa alguma, sem horários, tempo de chegada e tal, resolvi colocar o barco em Laguna para uma visita à cidade. Muito bom seria se chegássemos antes do vento à barra.

Continuamos nossa navegada agora com mais motor. Controlamos a intensidade do vento que chegava para ver as nossas condições de acesso à barra de Laguna. Quando estávamos frente a ela, decidi entrar e manobrei em sua direção. Fiz rumo da praia, passando pela entrada da barra que ficou por bombordo. Cerca de 300 metros após, manobramos o barco e viemos protegidos pelos molhes em direção à boca da barra. A entrada em Laguna não é muito segura para nosso tipo de embarcação, ainda mais com a onda começando a subir e o vento ficando mais forte.

Vim esgueirando o barco, protegendo-o das ondas que vinham de sul, numa distância segura dos molhes onde uma platéia se formou para ver nosso sucesso. Penso, ao menos, que esta era a torcida. Ao chegar frente à barra, dei o tempo de passar uma crista de onda que já estava muito alta e, literalmente, joguei o barco para dentro dando todo o motor. Foi o tempo certo. Nova onda vinha quebrando por fora do molhe sul e nos pegaria de mau jeito se a manobra não tivesse sido rápida. Mais uma das que aprendi com os grandes capitães, naqueles livros de cabeceira.

Seguimos até o Iate Clube, ótima recepção e acolhida. Tivemos apoio para reabastecer os tanques de diesel, passamos uma noite muito boa, bem abrigados, fora da barra o vento roncou forte até a madrugada. No meio da manhã, após esperarmos que as ondas baixassem, seguimos para a barra. Para nossa surpresa elas ainda estavam muito altas. Pudemos avaliar a intensidade do vento que havia passado para deixar aquele tamanho de mar.

Mesmo assim, fizemos toda uma manobra cuidadosa controlando o tempo das ondas, com um de nossos marinheiros – ex-surfista, subindo ao mastro para controlar o ritmo e tempo da série, como ele disse. Do convés, naquela situação, não víamos o mar devido à altura do molhe sul. Mar avaliado, tempo medido entre as ondas, recebi o aviso de ir em frente pois este era o tempo necessário para chegarmos na saída da barra no momento certo. Acelerei o motor, o barco iniciou seu deslocamento, a velocidade se firmou e veio o grito de retroceder. Vinha uma onda entrando e nos pegaria de mau jeito.

Nestes momentos tudo passa muito rápido por nossa mente. Uma infinidade de informações, conhecimentos prévios, imagens, passam como se fossem um raio riscando o céu. Voltar seria impossível. Havia muita correnteza, a maré estava vazante, as águas da lagoa faziam um movimento nada agradável para saírem da barra. Dar ré naquela situação deixaria o barco à mercê das correntes que o levariam contra os molhes. Não havia, também, espaço para dar a volta de 360 graus, pois a barra é muito estreita para o tamanho e raio de manobra necessários para meu navio.

Olhei para o mastro e vi meu marinheiro apavorado, coisa que também pude ver no semblante do outro no convés. Imagino que minha cara tenha ficado da mesma forma. Lembrei da saída de Rio Grande, calço do motor quebrado, motor desalinhado, água entrando, muita água agora. Que fazer? Lembrei de algo que li uma vez: “se não dá para orçar, arriba!” Não era o caso, mas se parecia muito. Ou seja, se não podia voltar, acelera e vai!

Foi o que fiz, chamei meu tripulante para o convés por segurança e enfiei mais ainda a mão no manete do motor dando mais aceleração e aumentando, se não a velocidade do barco, pelo menos sua capacidade de galgar a maldita onda. Fomos saindo lentamente da barra, parecia câmera lenta, me sentia assim. Na verdade tão rápido quanto possível, mas aquilo parecia uma eternidade. Avaliei que tanto mais demorasse melhor, daria mais tempo para eu ver a tal onda e tentar alguma manobra. Como se o tempo pudesse aumentar por parecer lento. Ou será que pode?

Fui avistando a tal onda fora da barra, ela vinha numa forma e tempo que me dava má impressão. Poderia passar sobre o convés. Segurem firme! Gritei. O navio avançava e a onda também, antecedendo algo como se fosse um choque. Parecia-nos dura como pedra e, por algum momento, como se o barco não fosse subir junto com ela. Tinha altura e muita potência. Nos olhamos novamente, não vi temor, mas muita apreensão.

A massa d’água começou a se chocar contra o molhe sul passando espuma por sobre ele e o barco foi saindo da barra, faltavam poucos metros agora, pouco tempo. Avaliei novamente e vi que nosso único perigo parecia o de ser arremessado sobre o molhe Norte. O que seria uma catástrofe. Uma viagem daquelas, minha primeira no comando de um navio, meu navio! Não era justo.

Pude avaliar mais uma vez a situação, dei mais manete para ter mais potência ainda, passávamos o alinhamento do molhe sul, estávamos com ela a nosso lado, mas com espaço para manobrar. Virei o leme rápido para iniciar a subida de sua crista. O barco atendeu com sua lentidão característica. Navio de quilha longa, muito bom de curso, lento de manobras.

Fomos subindo, parecia que não venceríamos, o motor foi cedendo à potência da onda deixando o barco perder velocidade. Virei novamente o leme de forma mais lenta e no sentido oposto para poder descer a onda sem cravar a proa na cava da próxima, o que seria muito ruim. Parece-me que fomos ganhando alguma velocidade e sobrevida. O barco foi subindo mais, agora ao longo da onda, até atingir seu cume. Ela quebrou no costado. Foi um impacto e tanto. O barco todo estremeceu e a espuma passou sobre o convés trazendo consigo muita água.

Alguns instantes mais e iniciamos a descida de forma espetacular. O alinhamento colocado fez com que descêssemos uma ladeira de forma suave. O motor deu velocidade novamente ao barco, fomos suavemente ao fundo do poço entre a onda que passou e a próxima e a encontramos de forma esplendorosa. Galgamos esta segunda e, com muito alívio, vimos que havia passado o perigo. Ufa! Só alguma água no convés (talvez também alguma calça cheia).

Daí em diante nosso dia foi tranqüilo, avaliar, rir um pouco, fazer mais chacotas agora, porém, do surfista. Buenas, estava enferrujado o rapaz, afinal era um ex-surfista. Registrar na memória o aprendizado, muito importante!

Navegamos pela baía Sul da Ilha de Santa Catarina de forma lenta, pois todo o cenário era novo e queríamos apreciá-lo o mais possível. Chegamos ao Iate Clube de Santa Catarina, em Florianópolis, no meio da tarde. Ótima recepção!

Daí em diante foram dois anos nesse ambiente. Céu azul, mar calmo, passeios, pescarias, tempestades, mais céu azul. E assim segue o ciclo do tempo.
Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: Tanto o Iate Clube de Laguna como o de Florianópolis tem estruturas para receber o navegador. Se necessitar de algum reparo na embarcação, o Iate Clube de Florianópolis, Veleiros da Ilha, dispõe de guincho de porte.

Pousadas

Em nosso idioma, o português falado no Brasil, a palavra Pousada nos remete para uma idéia de parada, pausa, repouso e aconchego. A idéia de uma Pousada é oferecer este aconchego tornando o hóspede quase um familiar, como se este em sua casa estivesse, sem as obrigações de tal situação: atender o telefone, receber visitas, preparar refeições, etc. Somente lhe cabendo o repouso.

Durante algum tempo, a palavra Pousada, segundo a Embratur, somente poderia ser aplicada para designar estabelecimentos de hospedagem que estivessem localizados em prédios históricos. Como o uso da palavra passou a integrar o nome de alguns estabelecimentos, esta norma se perdeu em sua intenção e eficácia.

Em alguns destes estabelecimentos, as pousadas, encontramos um ambiente caracterizado por temas a escolha de seus proprietários: arte local, arquitetura típica, cultura de origem, artesanato, esculturas, gastronomia, música, de maneira a despertar os sentidos de prazer, de sair do comum, de viajar dentro da viagem.

Cada Pousada, independente de sua localização, tem a oferecer um aspecto diferente e diferenciado para seus hóspedes, quer na forma de tratamento, quer nas características de suas ofertas. Bem receber e bem servir são prerrogativas de todo meio de hospedagem, mas nas pousadas isto se faz de forma mais intimista, menos formal, mais amigável, bem diferente do que é característico dos hotéis.

Busque seu destino preferido, seja praia, montanha, serra, planalto, canions, campanha, rios e lagoas, e busque a Pousada que melhor vai poder lhe aconchegar em sua estada, proporcionando-lhe todo o suporte para seu descanso.

E há algo de inusitado num bom serviço de uma Pousada que a faz merecer este nominativo: Segundo Antonio Ferro, 1942: Quando um hóspede deixar de ser tratado pelo nome para ser conhecido pelo número de quarto que ocupa, estaremos completamente desviados do espírito das Pousadas.

A melhor idéia de sua estada em uma Pousada, a certeza de que valeu a pena, é Você ter saudades mesmo antes de partir. E somente então tal estabelecimento pode ser grafado como Pousada, com maiúscula.

Leia também: Hotéis e Pousadas que encantam

Fotos: Roberto Lima
Local: Pousada Rural Mundo Antigo – Pomerode

Hotéis e pousadas que encantam

O que faz de um Hotel ou Pousada um meio de hospedagem que se destaca dentre os demais? O luxo das instalações? Os equipamentos diferenciados? O charme tão em voga?

Estudando sobre Qualidade em Serviços certa vez, li sobre os serviços da Disney. Tudo novo a todo novo dia! Exagero? Se virmos o descaso de alguns meios de hospedagem até que a “temporada” chegue. Se Você se hospedar logo antes da temporada, poderá pensar o quanto valeria o conceitro da Disney.

Pois lendo a matéria do André D’Angelo na Revista Amanhã, resolvi reportar aqui o link para tal matéria. Vale para hóspedes e para os donos de estabelecimentos de hospedagem. Cita ele as palavras de Peter Mayle sobre o Connaught, tradicional hotel londrino inaugurado em 1897: “Deixando de lado a excelente cozinha e o conforto do hotel, a grande atração do Connaught, aquilo que o diferencia de outros hotéis caros, é a atmosfera criada pelas pessoas que trabalham lá. Todas, sem exceção, eram bem-educadas, encantadoras e extremamente competentes. Encontrar pessoas assim, treiná-las e mantê-las custa muito mais do que qualquer outro luxo mais superficial. Nem todos os saguões de mármore do mundo podem competir com seres humanos amáveis, ansiosos por agradá-lo.”

Mas, mais interessante ainda, são suas palavras sobre o Copacabana Palace e sobre o que de fato encanta o hóspede.

Leia o original aqui.

E este escrito tem a ver também com a matéria deste site sobre Pousadas.