Acampamento em Cambará do Sul e Cânion Malakara

Acampamento em Cambará do Sul e Cânion Malakara por Vitor Diniz Sott

O tédio e a monotonia que no transcorrer das horas do cotidiano acomete a nós seres urbanos, em muitos casos não pode ser aplacado com apenas uma pequena mudança na rotina ou com uma daquelas festas “super legais”.

É preciso sim uma revolução em nossa realidade e no ambiente circundante. Neste caso viajar por caminhos nunca antes trilhados é uma pedida muito mais do que sensacional. Para mim então que gosto de uma dose de aventura, mas apenas uma pitada de gastos, um acampamento é o programa ideal.

Neste momento o passo mais importante já havia sido dado, tomar a decisão de viajar. Tive consciência de que eu precisava urgentemente de uma viagem-terapia, caso contrario provavelmente enlouqueceria pelo trânsito, a vizinhança e pelos demais causadores de sofrimento dos conglomerados metropolitanos.

Tínhamos a vontade, porém faltava-nos saber qual seria nosso destino. Conversando com um casal de amigos, encontramos companheiros de viajem que tinham uma sugestão maravilhosa. Acampar nas intermediações do cânion Malakara localizado no município de Cambará do Sul, berço deste e de outros dois grandes cânions do Rio grande do Sul. Em comparação com os cânions Fortaleza e Itaimbezinho, o Malakara não tem nenhuma estrutura de acesso e para chegar até ele é necessária muita disposição para caminhar no mínimo duas horas e meia por entre fazendas, campos, terreno pedregoso e muitas subidas. Eu, minha namorada e nosso casal de amigos, que eram também guias, chegamos ao local de acampamento com a lua a nos espreitar e o frio aumentando a cada momento.

O Cânion

Cânion Malakara

Armamos nossas barracas na escuridão, cerca de 200 metros do cânion, em uma pequena clareira rodeada de árvores no pé de um morro e a beira de um simples córrego que na extensão de seu curso formava uma linda e majestosa cachoeira a se derramar por entre as fendas do Malakara.

O Cânion – Outra vista

Boa alimentação, ótima conversa e uma noite muito tranqüila precedeu uma manhã ensolarada e um desjejum acompanhado de uma visita inusitada. Fervíamos leite e eu me direcionava para a água com alguns copos e talheres a serem limpos. Subitamente minha atenção é capturada por um ser que não constava em meus registros de memória.

Nosso Acampamento

Cambara do Sul Cânion Malakara

Acampamento no Malakara

Fiquei parado, confuso, pensando o que poderia ser aquilo, que perto de mim saciava sua sede nas águas gélidas daquele límpido lajeado. Parei com o que estava fazendo e chamei meus companheiros para vislumbrar o que eu vislumbrava e sentir o que sentia. Entusiasmo, inquietação e uma dose de ansiedade tomou conta do grupo, porém a surpresa maior foi perceber que o animal não sentia medo das pessoas e sorrateiramente se aproximava. À medida que chegava mais perto vi sua pelagem cinza e dourada com um rabo peludo e seu focinho alongado. Com um porte de um pequeno cachorro, notamos que o Grachaim não estava ali por nossa causa, mas sim motivado pelos anseios de uma farta refeição. Assim como no zoológico, mantidas as relativas proporções, não se deve dar comida aos animais, pois além da intenção de manter intacta a flora intestinal do bicho não queríamos ter a incomodação de atrair parentes e familiares do meliante. Antes que conseguisse usurpar nossos mantimentos pedimos a ele que gentilmente se afastasse, porém como nosso cortês pedido não foi atendido, tivemos de usar estratégias mais intimidadoras.

Nosso visitante

cambara do sul

Um ilustre visitante

Com os corpos alimentados e os espíritos sedentos, deixamos nosso acampamento para explorar esteticamente as grandes obras que a natureza construíra durantes muitos milênios. Primeiro conhecemos o imponente cânion, que de maneira magnífica é uma cicatriz na crosta terrestre do relevo local. Subimos um pequeno morro à cerca de 100 metros da boca do cânion, para apreciarmos a paisagem, refletir, conversar e, é claro, tudo isso regado por muito chimarrão. Quando findou nossa água quente, infelizmente tivemos de voltar a nosso acampamento.

Após um delicioso almoço, um sono revigorante. Já beirava final da tarde e logicamente fomos vislumbrar o crepúsculo em um dos locais mais esplêndidos que já conheci. Uma espécie de apêndice ou península de rocha adentrava a fenda do malakara. Estando na extremidade da formação tive a impressão de estava voando, porém tratei de logo desfazer este pensamento com medo de que se concretizasse, pois uma queda naquelas circunstâncias certamente seria fatal. As andorinhas em meio a uma espessa camada de nuvens que cobriam o fundo da fenda permitiram-nos ver seu espetacular show de acrobacias aéreas. O astro que nos aquecia logo se escondeu no horizonte e a noite trouxe consigo um vento gélido e preocupante. Será que logo em nosso ultimo dia, quando teríamos de desfazer o acampamento e organizar as coisas, cairia chuva e também a temperatura? A madrugada reservava muitas surpresas.

Na beira do abismo

Cambará do Sul com Malakara

Cânion Malakara

Jantamos em meio ao sopro de uma estranha brisa, que parecia preceder violenta tormenta. Divertimo-nos tomando um bom vinho e confraternizando o momento, mas ao mesmo tempo permanecíamos preocupados com o que estava por vir. O vento aumentava gradativamente, chegando a ponto de se tornar inviável permanecer fora do abrigo. Ele soprava com agressiva intensidade, se potencializando por não haver obstáculos em seu caminho.
Estávamos no pé de um morro, porém, o caminho do vento primeiro nos atingia para em seguida ser desviado pela elevação. A temperatura havia baixado muito de um dia para o outro e o vento deixava a sensação térmica ainda menor. Naquela noite percebi que a barraca que usávamos não foi projetada para aquelas condições de vento forte e muito frio. Suas hastes de sustentação envergavam feito bambu, e pelos locais mais estranhos permitia que grande quantidade de vento a invadisse. O barulho sombrio do vento e o medo de nosso abrigo ceder e rasgar fizeram de nossa noite de sono um período pouco agradável. Não dormi profundamente, apenas breves cochilos. Apesar de estarmos utilizando bons sacos de dormir e vestidos com roupas quentes, passamos frio de maneira nunca antes sentida.

O sol nasceu no horizonte e continuava ventando intensamente. Não era possível tomar café ao ar livre então tivemos de fazê-lo dentro da barraca. Esquentar o leite foi um pouco complicado. Com aquele tempo não havia muito que aproveitar do dia, e resolvemos partir. Esperamos até o sol aquecer o local e arrumamos nossas mochilas. O mais complicado foi o briga que travamos com o vento que queria de toda maneira levar para longe a lona das barracas.
Após um final de semana agitado e empolgante teríamos de voltar para a civilização. Mas antes enfrentaríamos mais de duas horas de caminhada.

Hora de ir!

Cambabá do Sul

Cambabá do Sul

Foi Maravilhoso o que passamos e o descanso que tivemos. A vista e as paisagens alimentaram nossos espíritos. Eu me sentia revigorado, mas também consternado de ter de partir. Porém se não partisse não poderia ter saudades do local e dos momentos. Queria lá ficar, mas também queria muito poder voltar para toda aquela beleza. Fomos embora e para trás deixamos momentos de muito deleite e prazer. Mas conosco levamos lembranças e laços nunca perdidos. Rememoraremos e serão revividos em cada encontro que tivermos.

Dicas do Viageiro: Leve sempre roupa quente, mesmo no verão.
Como chegar: Chega-se a Cambará vindo do sul via São Francisco de Paula ou pela BR 101 subindo via de Praia Grande.

Veja Também: Hotéis e Pousadas em Cambará do Sul

Leia mais: Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

Cambará do Sul – Itaimbezinho e Fortaleza

por Roberto Lima

A serra sempre é um local fascinante. Os campos de cima da serra com sua vegetação característica, nevoeiros, frio mesmo no verão, ao menos durante a noite, as propriedades divididas por taipas de pedra. Algo de muito bonito com um encanto particular.

Saímos de Criciúma com um destino muito diferente, bonito e imponente pela frente. Os cânions de Itaimbezinho e Fortaleza. Além dos outros que fazem parte dos mesmos conjuntos dos Aparados da Serra. A cidade mais apropriada para hospedagem e sede das expedições para os cânions só pode ser Cambará do Sul.

Clima frio nas noites de Carnaval, mas um bom sol e certo calor durante o dia, nevoeiro para completar o visual. Chegamos início da tarde no Itaimbezinho e fomos passear pelo parque. Tudo organizado, paga-se ingresso agora, estacionamento e trilhas orientadas para os passeios.

O visual do cânion é de difícil descrição. Só mesmo vendo, mas vamos a uma tentativa. Estamos num relevo de altitude, cerca de 1000 metros acima do nível do mar. Campos verdejantes se descortinam por uma imensidão que os olhos perdem na distância. De repente se avistam imensas fendas no chão com larguras e profundidades assustadoras. Mais de 800 metros de profundidade! Lá no fundo destes vales, por assim dizer, vê-se tudo muito pequeno. As águas da cachoeira que despencam de suas bordas tornam-se como que fumaça chegando ao fundo do vale. Os costões são de uma beleza singular com sua formação rochosa e a vegetação que se desenvolveu e que ali se fixa como que testemunhando o tempo. Sobe do fundo destes vales um vento frio carregado de nevoeiros a partir de certo horário. Tudo magnífico, imenso, belo!

Saímos do Itaimbezinho e fomos em busca de um hotel ou pousada para ficar. Nossa viagem não estava planejada propriamente, algo que é de nosso costume, aventurar-se simplesmente e, estando bom, vamos vendo como resolvemos as coisas. Era meio de feriadão e tudo estava lotado, ou quase tudo. Acabamos ficando em um antigo hotel, belo e descuidado prédio na avenida da cidade, meio desanimador pela aparência, mas com um atendimento muito acolhedor de sua proprietária.

À noite saímos para jantar num restaurante típico gaúcho de cima da serra. Uma canha para aquentar o vivente, fogo para manter o ambiente! Fogão a lenha, churrasqueira e carnes era a pedida certa. Muita comida de panela, tudo muito leve e saudável. Um bom vinho. O local é muito bem freqüentado, estava cheio e tinha uma música de gosto e com volume nos trinques. Um acordeom com o grupo de violeiros fez o fandango ficar no nível!

O café da manhã do hotel foi algo à parte. Ao chegarmos no salão tomamos conhecimento das normas da casa. Primeiro que nós perdemos o jantar da noite anterior no próprio hotel, o que nem mesmo sabíamos que haveria. Mas pareceu que os outros também não. Foram se reunindo, juntando alguns víveres e fizeram um bom jantar no fogão a lenha todos reunidos. Pena que perdemos isto, pareceu pelo tom da prosa que esteve muito animado tal jantar. Fica para a próxima.

Segunda norma é que o salão de café estava em desuso por iniciativa dos próprios hóspedes e com o apoio da dona da casa. Estavam todos na cozinha, grande mesa ao centro, fogão a lenha aceso e todos os ingredientes do café a disposição. Era só servir-se! Claro, preparar o café, aquentar o leite, cortar salame, queijo e tudo o mais. Ou seja, algo por demais caseiro e inusitado para quem tem o hábito de ir a hotéis ou pousadas com o atendimento característico de café da manhã. Mas tudo muito bom! Inclusive o chimarrão que corria de mão em mão.

De lá saímos para ir ao Cânion da Fortaleza. Ouvimos muitos desencorajamentos, pois para se ir até lá e ver algo antes do nevoeiro, teríamos que ter saído muito cedo, disseram-nos. Mas, com toda a fé de que iríamos ver o cânion, insistimos e seguimos para lá.

São cerca de 20 Km de estradas de terra e pedra muito do ruim. Nosso carro em nada era feito para aquele tipo de terreno, mas nenhuma dificuldade nos perturbou. Chegamos ao Cânion por volta de 11 horas e fomos direto ao topo da última montanha. E o nevoeiro? Que nada, tomamos inclusive, uma certa queimadura do sol, mas isso só notamos à noite.

Do alto da montanha avistamos o mundo ao longe. Torres, o mar oceano, quase a África! Caminhamos até a última montanha por entre uma vegetação por vezes densa e com uma certa dose de aventura. Irresponsabilidade, talvez, pois se o nevoeiro se formasse estaríamos em muito maus lençóis.

Curtimos bastante o visual, o silêncio, o murmurar do vento. Depois de parecer estar voando no alto dos penhascos, retornamos à base e rumamos para a Pedra do Segredo. Muita sorte ter visto o Cânion sem nevoeiro e ainda queríamos mais. Já eram cerca de 14 horas, mas seguimos até o ponto de parada na estradinha e dali a pé.

Novo passeio de sucesso e com visuais deslumbrantes. Na verdade não podíamos crer que a natureza nos pudesse privar daquilo tudo. Aproveitamos o visual, fotos, o ar das montanhas, o sol, certo calor até. Retornamos ao carro e saímos de lá já após as 15h30. O nevoeiro, então, começava a se formar.

No caminho uma pausa no Paradouro Fortaleza para um lanche, almoço, tudo junto. Local muito bonito, bom atendimento no estabelecimento. Uma canha pra aquentar, um ótimo lanche, chocolate quente, já era a pedida.

Daí foi o retorno para casa. Mais um belo passeio. Até a próxima viagem!

DICAS DO VIAGEIRO: Leve sempre roupa quente, mesmo no verão.

COMO CHEGAR: Chega-se a Cambará vindo do sul via São Francisco de Paula ou pela BR 101 subindo via de Praia Grande.

Veja também: Hotéis e Pousadas em Cambará do Sul

Leia mais: Acampamento em Cambará do Sul – Cânion Malakara.

Cambará do Sul

Cambara do Sul

Cânios em Cambara do Sul

Histórico: Em 1494, mesmo antes do descobrimento do Brasil, e por muitos anos ainda, o território do atual município de Cambará do Sul pertencia aos reis da espanha.

As rochas encontradas em Cambará do Sul têm de 137 à 150 milhões de anos e são chamadas de basalto. A terra tem 4,6 bilhões de anos e os homens nela a 2,5 milhões de anos.

Basalto é uma rocha magmática porque resulta da consolidação do magma (material ígneo que está no interior do globo terrestre) e é chamado também de rocha magmática extrusiva porque sua consolidação ocorreu na superfície.

A cerca de 137 à 150 milhões de anos atrás a terra era formada por um único continente chamado de Pangéa. Todo esse território era constituído de um deserto chamado de bacia sedimentar do Paraná.

Então aconteceu o que na geologia é chamado de “Derrames Basálticos” ou seja, esse deserto se rachou e o magma do centro da terra imergiu e alagou uma área de 1.000.000 Km². O magma vinha do centro da terra a uma temperatura de 10ºC resfriava e solidificava ao mesmo tempo. Assim ocorreram 13 derrames basálticos.

Com uma população de 6711, altitude de 980m, clima subtropical, pode ser acessada pela rodovias RS 020, RS 427, ditante 180 km de Porto Alegre.

É roteiro de quem admira os Cânios e o turismo rural e eco-turismo. Tem nas suas vizinhanças São Francisco de Paula e São José dos Ausentes como destinos também bastante procurados

Caminhos da Neve

Locais onde além do frio, a presença da neve é uma constante durante os invernos. A precipitação da umidade em forma de flocos de neve não depende somente da temperatura. Outros fatores são necessários estar combinados para que o fenômeno acorra. Esta ocorrência é mais comum nos municípios da serra do Rio Grande do Sul, Região dos Vinhedos, alguns municípios da Rota Romântica e Região dos Canions.

Considerando a maior constância do fenômeno, podemos listar nos Caminhos da Neve os seguintes municípios: Nova Petrópolis, Gramado, Canela, São Francisco de Paula, Cambará do Sul, São José dos Ausentes, Jaquirana, Monte Alegre dos Campos, Bom Jesus e Vacaria.